Cheiro de 2013 no ar

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Nesta quinta-feira (17), horas depois de o golpista Michel Temer anunciar que não renunciaria, um protesto reuniu cerca de 5 mil pessoas na Av. Paulista. Como aconteceu em outras capitais e grandes cidades do país, milhares de pessoas foram manifestar de forma mais ou menos improvisada seu repúdio contra os golpistas, mesmo sob chuva e frio. Uma resposta imediata contra um governo que já estava paralisado frente à mobilização dos trabalhadores contra as reformas.

Golpe: a questão inescapável

Enquanto a mobilização se concentra em atacar os sintomas do golpe, no entanto, há um terreno fértil para a confusão política. O problema fundamental até agora está sendo evitado por amplos setores envolvidos na luta contra o golpe. O fundamental consiste em derrotar o golpe, o que significa exigir a anulação do impeachment e impor a recondução de Dilma Rousseff à Presidência da República, em respeito à escolha popular feita por meio do voto. Para ser exato, 54.501.118 votos, 51,64% dos 105.542.273 votos válidos.

Uma repetição de 2013

Foi em meio a essa confusão política que manifestantes voltaram a ser hostilizados no protesto de quinta-feira, à maneira do que ocorria em 2013. Durante o ato, simpatizantes do ex-presidente Lula e do PT foram vaiados na Paulista. Um grupo de pessoas vestidas de preto, ostentando uma bandeira preta sem dizeres nem símbolos, vaiaram os petistas e gritaram palavras de ordem contra Lula, alvo de perseguição política da direita golpista teleguiada.

Esse incidente é uma reedição dos pedidos para que militantes de esquerda abaixassem suas bandeiras durante os protestos de 2013, ainda que atenuada. Naquela ocasião, a direita aproveitou a confusão para sequestrar os protestos no momento em que eles cresceram em repúdio à brutal violência da repressão da PM de Geraldo Alckmin, governador de São Paulo.

No dia 13 de junho daquele ano a polícia barbarizou em um protesto contra o aumento das passagens do transporte público, produzindo uma série de imagens chocantes de violência contra o povo. Quatro dias depois, 17 de junho, uma manifestação gigantesca tomou conta de São Paulo. Para contornar a situação, a direita aproveitou a confusão política da esquerda e montou uma operação de sequestro das manifestações.

Por um lado a imprensa burguesa divulgava uma pauta própria para as manifestações, por outro, bandos fascistas atacavam a esquerda nas ruas. O sucesso da operação levou a direita a controlar os protestos, que por isso acabaram esvaziados até sumirem completamente, à medida em que as pessoas percebiam que tinham ido parar em um ato que pertencia à direita, invariavelmente odiada.

“Diretas já”, palavra de ordem vazia

Uma fragilidade do movimento contra o golpe é o vazio das palavras de ordem adotadas hoje. Tanto “Fora, Temer!” quanto “Diretas já!” podem ser reivindicadas e encampadas pela direita golpista que colocou Temer no poder. Isso acontece principalmente por duas razões: em primeiro lugar, essa palavra de ordem não é antigolpista; em segundo lugar, não é classista. É uma brecha para que a direita atue novamente por dentro do movimento que toma as ruas.

Caso os donos do golpe concedessem um processo de eleições diretas, essas eleições não implicariam em uma reversão do golpe. Pelo contrário, seriam organizadas pelos setores que tomaram ilegitimamente o poder. Uma amostra do que seriam essas eleições foi dada nas eleições municipais de 2016, organizadas pela direita de forma favorável aos partidos de direita. As “diretas” sob o regime golpista muito provavelmente significariam “direita já”. O que emprestaria certa aparência de legitimidade às reformas golpistas, camuflando a ditadura sob um manto de aparente democracia. Um desfecho desastroso para o movimento que enterrou o governo Temer a ponto de fazer os donos do golpe o demitirem.

O outro problema é que essa palavra de ordem, “diretas já!”, pode ser apropriada e disputada pela burguesia pró-imperialista e seus movimentos artificiais financiados com dinheiro dos EUA. Não é uma palavra de ordem incompatível com os interesses da burguesia. Nem com o objetivo da burguesia de impor o programa do imperialismo para os países atrasados aqui no Brasil. Um programa de maior exploração dos trabalhadores e de um saque ainda maior do patrimônio nacional.

Pela anulação do impeachment!

A exigência de que o processo fraudulento de impeachment que tirou Dilma do governo, por outro lado, é absolutamente incompatível com a política imperialista e o golpe. Sob essa política, os trabalhadores enfrentam as reformas e o golpe de maneira que seria muito mais difícil qualquer manipulação burguesa do movimento contra o golpe. Sob essa palavra de ordem, ataques direitistas no interior do protestos da esquerda tornam-se inviáveis.

Caso essa exigência, a anulação do impeachment, fosse imposta ao regime político pelos trabalhadores mobilizados, a classe operária tomaria a iniciativa na crise e o imperialismo passaria à posição defensiva, invertendo-se a situação presente. Por isso é preciso ir às ruas exigir a anulação do impeachment, em respeito à soberania do voto popular nas eleições. Sem espaço para que um novo 2013 se repita no meio da confusão da esquerda.

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