Antes tivessem cortado a minha cabeça…

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Nem MARX acreditava na mudança da sociedade por intermédio de uma suposta força revolucionária originária do sistema prisional (GABRIEL, 2013). Na verdade, a maior parte dos presos está encarcerada por reproduzir os valores e a moral dominante a nível marginal, na ilegalidade, porque o mundo do Estado de Direito nunca lhe foi acessível.

Mas como não reconhecer, no marasmo da alienação total, haver pessoas que não se sujeitaram à escravidão salarial, única parcela da estrutura do capital reservada aos miseráveis, marginais de nascença.

Há, com efeito, os que não tiveram opção, pobres aos quais foi negada até essa parcela de esmola, que vagueiam qual sombras por aí. Mas fala-se aqui daqueles que, diante da dificuldade e da mesquinharia do que lhes foi reservado, não aceitaram, seguiram outro caminho, talvez nem o mais fácil, o caminho do crime.

O déficit de direitos e de igualdade é também déficit de legalidade, a ponto de Nilo BATISTA afirmar que “todo crime é político”. O professor carioca fez tal afirmação em uma entrevista, na qual lembra quando Augusto Thompson, numa conferência, teve que responder à pergunta: “Qual a diferença entre criminoso comum e político”; ao que Thompson respondeu: “A diferença é que o criminoso comum também é político, só que ele não sabe” (2003, p. 29).

Não sabe que é detentor da única violência a se contrapor à violência do Estado, das empresas, do capital, que extorque seus companheiros de infortúnio, os demais pobres. É detentor da violência criminalizada, selecionada, fotografada, a fim de servir de bode-expiatório para que todas as outras violências continuem acontecendo, mas não sabe. A questão é mesmo de ignorância.

Efetivamente, se todo crime é político, nos cárceres estão os mais valiosos representantes de uma revolução tolhida antes mesmo de ser pensada.

“Os negros mais valorosos são aqueles que estão encarcerados, aqueles que têm espírito guerreiro, que têm o sentimento de serem africanos. Para as suas mulheres e seus filhos, eles pegaram o que foi necessário quando todos os caminhos estavam vedados. O grande espírito de resistência está nos negros entre os encarcerados” (WILSON apud HEDGES, p. 107).

Por isso a população deve ser mantida sem memória, principalmente a população negra, maioria entre os encarcerados, para não lembrar de tudo o que lhe foi tirado, roubado, confiscado, para não parecer que o crime dito comum é uma espécie de reivindicação dos espólios de um crime muito maior e mais grave.

Para além da violência do próprio cárcere, que destrói por intermédio do abandono, de doenças, das grades e muros úmidos, mofados, com pessoas entulhadas até o teto, é a falta de memória, a impossibilidade de expressar a própria dor, que faz os presos se matarem.

Cortam cabeças uns dos outros em um ritual macabro, fazendo o papel de seus próprios algozes. Reproduzindo mais uma vez os valores e a moral social de indiferença para com a vida, mostram para a sociedade o sangue que também corre em suas veias.

Desde que presenciei os presos decapitados, esquartejados, na penitenciária de Manaus, na última rebelião, menos o choque de ver a realidade do que filmes, a televisão e o cinema, mostram o tempo todo, o que mais intrigou foi saber as razões de um ser humano chegar àquele ponto, e uma delas parece mesmo ser a necessidade de mostrar, com o sangue derramado, que há seres humanos ali.

Não tanto seres humanos, porque uma das funções do cárcere é destruir o ser humano que lá está, mas pessoas vivas, morto-vivas.  Morto definitivamente qualquer espírito revolucionário, pois, se alguma consciência existisse da opressão, da ilegalidade a que são submetidos, da violência do Estado, não teriam cortado a cabeça uns dos outros, teriam cortado a minha cabeça. Antes tivessem cortado a minha cabeça.

Referências:

BATISTA, Nilo. Todo crime é político. In: Revista Caros Amigos. Ano VII, n. 77, ago 2003, p. 28-31.

GABRIEL, Mary. Amor e capital: a saga familiar de Karl Marx e a história de uma revolução. Rio de Janeiro: ZAHAR, 2013.

HEDGES, Chris. Wages of rebellion: the moral imperative of revolt. Nova York, EUA: Nation Books, 2015.

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