Há 15 anos o povo nas ruas derrotou um Golpe de Estado

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Diante do Golpe do Estado no Brasil nada mais pertinente do que relembrar um golpe de Estado de um dos nossos vizinhos latino americanos. Em 11 de abril de 2002, os Estados Unidos, juntamente com militares venezuelanos, deram um golpe no presidente Hugo Chavez.

O golpe imperialista na Venezuela fracassou devido à enorme mobilização popular que se seguiu, o que pode ser um exemplo para o Brasil que no momento vive um golpe em que a direita ataca duramente todos os direitos da população. O fracassado golpe na Venezuela completou 15 anos nessa semana e vale ser lembrado para que semelhanças com o golpe no Brasil sejam destacadas e que sirva de exemplo aos trabalhadores e a população brasileira como exemplo de resistência.

O golpe na Venezuela veio depois de três anos do governo Chavez, eleito massivamente pela população venezuelana em 1999, pela primeira vez. A oposição de direita aliada ao imperialismo norte-americano e à imprensa burguesa no país iniciou uma campanha para difamar Chavez, chamando-o de autoritário, comunista e, claro, corrupto. Uma das principais “discordâncias” da direita brasileira e estrangeira com a política de Chavez envolvia a empresa nacional de petróleo da Venezuela, PDVSA, que apesar de nacional atuava com particulares. Uma das primeiras medidas de Chavez foi mudar a direção da empresa. Isto foi suficiente para que a direita encampasse uma campanha contra o presidente.

Diante de uma insistente propaganda da imprensa burguesa venezuelana, Chavez era tido como impopular e corrupto. Manifestações da direita foram convocadas para pedir a saída do presidente. Nestas manifestações o que mais se via e ouvia eram, coincidentemente, batuques com panelas e os dizerem “volta pra Cuba”.

Para pressionar ainda mais o governo, a federação de Indústrias da Venezuela, Fedecâmaras, a FIESP venezuelana, convocou uma greve geral por meio do presidente, Pedro Carmona, um dos principais agentes do golpe. No dia 11 de abril de 2002 foi convocada com grande vigor pelos quatro canais da imprensa burguesa uma grande manifestação da direita no mesmo dia em que uma manifestação da esquerda acontecia em apoio a Chávez no palácio presidencial de Miraflores. Um dia antes o general do exército já havia declarado que as Forças Armadas entrariam em ação se necessário, pois Chavez não representava mais os interesses dos venezuelanos. O encontro entre as duas manifestações gerou confronto e a morte de 19 pessoas por meio da ação de atiradores de elite da ala dissidente do exército, contrária a Chávez.

O exército entrou em ação e cercou o palácio de Miraflores. Por meio de intensa ameaça a Chavez, dizendo que bombardearia o palácio caso não renunciasse, o presidente se entregou, mas não renunciou e foi levado preso. Imediatamente  foi instituído um novo governo em que Pedro Carmona foi decretado o novo presidente de fachada para encobrir os militares. Entre suas primeiras medidas dissolveu o Parlamento (Assembléia Nacional), o Supremo Tribunal Federal (STF), o Conselho Nacional Eleitoral de todos os governadores, prefeitos e vereadores, destituiu o Procurador Geral, a Controladoria, o Ministério Público, todos os embaixadores, cônsules e vice-cônsules, as missões diplomáticas permanentes, e eliminou 48 leis. E por fim anulou a recente Constituição aprovada por referendo em 1998. Uma das medidas também foi retirar do ar o Canal 8, canal de televisão do governo Chavez, que noticiava o que não aparecia na imprensa golpista. Tanto a direita quanto a imprensa burguesa, com destaque para o Canal RCTV, a Rede Globo venezuelana, apoiaram incondicionalmente o golpe de Estado dando voz ao novo presidente que cinicamente declarava que todo o processo tinha sido  absolutamente democrático e constitucional.

No dia seguinte a população venezuelana foi às ruas em Caracas e em dezenas cidades do País e foi duramente reprimida. Estes fatos não chegaram a ser veiculados pelos canais golpistas. Enquanto isso, Estados Unidos e Espanha reconheciam a legitimidade do novo presidente golpista, Pedro Carmona. E os demais países da América Latina e Europa não reconheciam o novo governo.

Não se deixando intimidar pela repressão, a população foi em massa ao palácio Miraflores pedir a volta de Chavez. Centenas de milhares de venezuelanos gritavam “Volta Chávez” em frente ao palácio. A pressão popular fez com que a Guarda Presidencial pró-Chávez que estava no palácio retomasse o prédio. Carmona e outros golpistas fugiram, mas alguns acabaram sendo presos pela guarda.

Enquanto a imprensa golpista venezuelana escondia este fato, os ex-ministros de Chavez e o vice-presidente retomavam o palácio e as rédeas da situação. Com a situação insustentável para os golpistas a ala do exército pró-Chavez retomou o comando e forçou que os demais voltassem a apoiar o presidente. Chavez que estava preso em uma ilha foi solto pelo exército e deu fim ao golpe que durou 47 horas.

A história desse golpe fracassado na Venezuela em 2002 é muito rica em detalhes e esta coluna não pode abarcar, mas recomendo aos interessados dois importantes documentários que podem enriquecer os fatos. Um deles é “Guerra contra a Democracia” feito por Christopher Martin e John Pilger em 2007 que trata dos vários golpes recentes dos Estados Unidos em países da América Latina, não somente a Venezuela. E o outro é o espetacular “A Revolução não será Televisonada” de 2003, dirigido pelos irlandeses Kim Bartley e Donnacha O’Briain que estavam na Venezuela em 2002, durante o golpe gravando um documentário sobre o Chávez, ou seja, eles tiveram o privilégio e a perspicácia de filmar todo o ocorrido em primeira mão. Ambos os filmes são facilmente encontrados na internet.

As semelhanças com o golpe no Brasil envolvendo as manifestações coxinhas, a campanha incessante da imprensa golpista, a interferência direta dos Estados Unidos e outros aspectos devem ser vistos para que a luta contra o golpe seja mais clara e mais convicta. Pois no nosso caso o golpe ainda não foi concluído e deve ser derrotado com o povo nas ruas.

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