Bolsonaro: a cara do fascismo brasileiro

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“Onde tem uma frase minha, um gesto meu, um ‘heil Hitler’?”. Com essa frase Jair Bolsonaro procura negar sua aproximação com a política de tipo nazista, mas essa explicação está longe de ser suficiente para responder à questão.

O nome de Bolsonaro começou a crescer e ganhar evidência no cenário nacional junto com as manifestações golpistas. O que começou como uma reação às manifestações de 2013, evoluiu para uma defesa aberta da ditadura militar e finalmente em grandes atos pela derrubada da presidenta Dilma Rousseff, todos eles recheados de palavras de ordem fascistas.

A organização do golpe pelo imperialismo, tendo uma aparência (débil) de apoio popular e de luta contra um partido de massas como o PT implicava necessariamente em mobilizar a tropa de choque da direita; o fascismo.

A propaganda da imprensa capitalista e a massa coxinha na rua não eram suficientes para derrubar o governo petista. Era preciso uma forte campanha anticomunista e, sobretudo, a intimidação por meio da violência.

Não se trata de uma mera troca de presidentes, mas de uma operação de muito maior alcance que necessita acuar os movimentos sociais, populares, sindical, estudantil, e a esquerda de modo geral.

Uma vez que os cachorros loucos da direita estão soltos, não é fácil colocá-los na coleira novamente. E muitas vezes sequer é desejável, pois são um recurso indispensável para a burguesia derrotar o movimento operário e a esquerda em geral.

Ao mesmo tempo, a mobilização da direita para o golpe polarizou a situação e, enquanto parte da população se desloca para a direita, outra parte muito maior se desloca para a esquerda.

Bolsonaro aparece nas pesquisas com 9% das intenções de voto. Alguns institutos chegaram a apontar 18%. E, embora, haja em torno dele um certo ar de zombaria por parte dos setores democratizantes e liberais, o fato é que ele conquista cada vez mais espaço nessa imprensa “democrática” e “liberal”, como é o caso da Folha de S. Paulo, que publicou entrevista com o deputado nessa segunda-feira.

O golpe e a polarização são resultado da falência do regime pseudo-democrático no país. As denúncias de corrupção, a desmoralização do Congresso, e das políticas democratizantes. Hitler também se ergueu sobre as ruínas da super democrática República de Weimar. Também se apresentava como um ser honesto, tal qual Bolsonaro (“sou acusado de tudo, só não de corrupto”), e propunha “guerra contra a administração parlamentar corrupta”. Diante de um Congresso ineficiente e desmoralizado, que não consegue dar solução a nenhum problema, cresce a busca por soluções extra-parlamentares, tanto da direita quanto da esquerda.

E a grande contribuição aos Hitlers de plantão vem justamente das camadas liberais e democráticas e da esquerda pequeno-burguesa, apêndice da primeira.

Enquanto Bolsonaro apresenta uma política criminosa e demagógica, mas firme para os problemas do País, esses setores procuram se fixar em questões secundárias e que correspondem ao interesse apenas de uma camada geralmente privilegiada da população. A questão da homofobia, a campanha pacifista contra o desarmamento etc. Uma política que, embora pareça muito natural para eles, só contribui para aumentar a popularidade da extrema direita, principalmente pela maneira como é feita.

Chegamos aqui ao ponto central da matéria: Bolsonaro seria, ao que tudo indica, nosso candidato a Bonaparte ou a Hitler.

O primeiro indício é o próprio ar de troça por parte da camada “ilustrada” da sociedade brasileira, e inclusive da própria esquerda. A disseminação da ideia de que ele é uma figura ridícula (embora de fato o seja), serve apenas para despistar a população, que pode cedo ou tarde ser surpreendida com um governo Bolsonaro. Foi exatamente assim com Hitler. Ridículo e grotesco não são sinônimos de inofensivo.

Outra semelhança notável é a ligação de ambos com o exército. Hitler, depois de servir na Primeira Guerra, tornou-se informante do serviço de Inteligência do exército. Seu objetivo era espionar as organizações de trabalhadores e passou inclusive a ministrar palestras para oficiais. A base do movimento nazista foi desde o início o exército e os órgãos de segurança. Seus principais quadros, os comandantes das tropas de assalto etc, eram figuras saídas do exército, onde tinha grande influência. Nem é preciso explicar a semelhança com Bolsonaro nesse quesito.

A oratória “dura” e sem contemporizações também era típica de Hitler. Hitler prometia combater as potências estrangeiras que subjugaram a Alemanha, bem como os “traidores” social-democratas e comunistas com grande violência. Já seu correlato tupiniquim procura dar uma volta. Promete ser implacável com os criminosos (leia-se a população pobre atirada às cadeias brasileiras): “Você não combate violência com amor, combate com porrada, pô. Se bandido tem pistola, [a gente] tem que ter fuzil”. E é por meio desses que chegam à violência contra os movimentos sociais, insistentemente tratados como organizações criminosas, afinal ambos são compostos pela população pobre. A demonstração de força, primeiro em palavras e depois em atos, é fundamental para encher de segurança os covardes de todo tipo, para dar a pessoas que não passam de uma poeira de humanidade a sensação de poder necessária para combater a poderosa classe social que formam os trabalhadores brasileiros. Nesse sentido, o desprezo ao movimento operário, aos movimentos sociais e à população pobre em geral é também indispensável a esse fim.

E tudo isso a serviço de quem? Evidentemente que da burguesia, como revela o deputado na entrevista: “O empresariado não quer mais curtir férias na Flórida. Quer ficar no Brasil. Como podemos ajudar a resolver a violência? Não vai ser com política de direitos humanos”. Aqui fica claro que a violência que ele quer resolver com violência não é a dos “bandidos”. Os donos das grandes empresas não estão preocupados em serem assaltados no semáforo, e sim com a ameaça que representa a classe trabalhadora. A “violência” que Bolsonaro promete aos patrões que irá resolver, é a luta do movimento operário.

Apesar de procurar aparecer como uma figura independente, está profundamente ligado a setores desse empresariado e do “sistema financeiro”, de “variados setores que mexem com bilhões em São Paulo”, segundo suas palavras. Ele representa, na realidade, um setor da burguesia que cada vez mais tende a adotar uma solução de força contra a ameaça que enxerga na população.

Na entrevista, Bolsonaro defende ainda que se for eleito, colocará militares em metade dos ministérios. Evidentemente um plano para impor uma feroz ditadura contra o povo, utilizando a eleição, um processo aparentemente legítimo e legal como um cheque em branco para seu governo. Como fez o alemão.

Para completar, Bolsonaro não tem um programa claro e coerente. É uma mistura de  demagogia social com política ferozmente patronal e um nacionalismo de fachada. O nazismo era exatamente assim. A unidade do seu programa está em um ponto: esmagar o movimento da classe operária.

A grande diferença está no seu conteúdo social. Hitler era o representando dos grandes monopólios alemães contra os monopólios rivais, da Inglaterra e da França. Seu nacionalismo supersticioso estava a serviço desta causa. Bolsonaro só pode chegar ao poder com o apoio dos grandes capitalistas aliados ao capital internacional e este mesmo capital. Seu nacionalismo é a fachada de uma política antinacional.

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