Empoderamento: o ouro de tolo do movimento feminista

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“Empoderamento” é uma daquelas palavras (bárbaras) que de repente passam a fazer parte do vocabulário cotidiano de todo um setor sem que se saiba exatamente de onde saíram e o que de fato significam.

Seu uso tem se popularizado tanto que segundo pesquisa da Editora Positivo a palavra “empoderamento” foi a mais buscada no Dicionário Aurélio no ano de 2016 pelos dois milhões de estudantes que utilizam o método da editora.

Assim, pode parecer estranho para alguns que nos coloquemos contra a sua utilização e mais precisamente contra a concepção do caráter da luta das mulheres e demais setores oprimidos que ela encerra. Para outros mais críticos, no entanto, a grande popularidade da palavra explica por si nossa oposição e gera a desconfiança natural.

Afinal, se é uma palavra que é “chave” para a luta dos setores oprimidos, por que é tão divulgada pelo monopólio da imprensa capitalista e pelos órgãos do próprio imperialismo, em uma palavra, pelos opressores?

Eis a resposta: porque a ideia de empoderamento propõe uma solução individual não coletiva, muito menos de classe, apresentando ainda aos setores oprimidos uma luta infrutífera e ilusória que promete a libertação social sem tocar na base material do problema, usando apenas o poder do pensamento positivo.

Vejamos o problema em detalhe.

Qual é a base da opressão da mulher?

A resposta a esse problema é fundamental para qualquer luta séria pela emancipação da mulher.

Para os adeptos do “empoderamento”, o problema da mulher não tem uma base na realidade econômica, mas reside apenas na consciência de cada um, resultado de uma doutrinação da sociedade que por algum motivo continua se perpetuando.

Segundo o site Buscofem.com, empoderamento feminino “nada mais é do que a mulher agir, ser vista e ver a si mesma como parte importante, independente e igualitária da sociedade, sendo respeitada, valorizada e tendo os seus direitos assegurados em todas as esferas da sociedade.”
Outro site feminista define: “O empoderamento é um diferencial, ele é chave, não podemos esquecer disso! Nós mulheres somos domesticadas, condicionadas a acreditar que somos inferiores, que somos mais frágeis, fracas e que precisamos de protetores, homens protetores.” (“Empoderar!”, de blogueiras feministas.com). Ou seja, tudo consistiria em um condicionamento social, uma mistificação, um engodo. As mulheres seriam oprimidas porque não se deram conta, até o momento em que surgiu esta doutrina, de que estavam sendo vítimas de uma grande mentira.
Ou ainda, “Empoderar a mulher não é delegar poder para ela, como se fosse um benefício, um favor que a sociedade deve oferecer para ela, empoderar é uma busca da mulher pelo seu próprio poder, pelo poder que sim está implícito nela, que nós muitas vezes desconhecemos.

Ou seja, a mulher empoderada é aquela que deixa de se enxergar como inferior, desvalorizada, frágil etc. Esse processo deveria então se repetir indefinidamente até que todas as mulheres estivessem “empoderadas”. Aqui há duas questões que necessitam ser observadas. Primeiramente, é preciso responder a pergunta de que por que não estando em uma condição inferior, a mulher se vê como inferior. Segundo, a esmagadora maioria das mulheres, que são dominadas e submetidas a uma situação de inferioridade política e social sequer tem a consciência desta inferioridade. Nesse caso, como é possível que elas sejam dominadas e reduzidas a uma condição inferior?

Mas mudar a consciência por si só não implica em mudar a realidade. A mulher pode tomar consciência de que ela tem sido oprimida a vida inteira, mas isso não quer dizer que ela vai deixar ser oprimida. Um operário pode ter a consciência de que o capitalismo é um sistema de opressão e exploração, sem que isso altere coisa alguma na realidade material do capitalismo. A exploração e a opressão somente podem ser mudadas por uma revolução social. E por isso são inevitáveis os choques pessoais que essas feministas têm contra todos os que manifestem pensamento diverso, pois eles estariam negando a elas o poder que é delas por direito.

Por outro lado, não há de fato mudança de consciência se não há mudança na realidade material. O pensamento não existe como um fato em si mesmo, descolado de tudo o que rodeia o ser humano. Ele é antes um reflexo do mundo material.

Por isso, se a mulher é doutrinada e condicionada a se acreditar inferior e a grande maioria das pessoas age sobre a base dessa ideia, é porque ela se liga de alguma maneira com a situação material da mulher na nossa sociedade.

Não se trata apenas de uma mentira que alguém inventou e todos acreditaram. Fosse assim bastaria de fato mostrar que se trata de uma mentira. Mas a ideia persiste porque está apoiada sobre alguma base material. Os velhos filósofos iluministas acreditavam que a religião era um erro e uma mentira e não um fato social e que bastaria colocar as claras, esclarecer esta mentira para que ela acabasse. O erro desta filosofia já foi demonstrando milhares de vezes.

A opressão da mulher não está na cabeça das pessoas. Ela tem bases materiais e são essas bases que permitem e sustentam a opressão e geram na cabeça das pessoas as ideias de inferioridade. Sua base material é a escravidão doméstica da mulher, o fato de que ela não consegue se livrar do trabalho no lar, que está na esfera privada, vendo-se assim excluída do trabalho produtivo social, e portanto da propriedade e do poder social.

O “machismo” é uma expressão ideológica dessa opressão material e só pode desaparecer se essa base material da opressão da mulher desaparecer.

Embora seja muito difundida a crença de que a mulher não está mais presa ao lar, que ela se inseriu no mercado de trabalho etc., essa é uma realidade para uma minoria das mulheres.

Uma pesquisa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) apontou que cerca de 70% das mulheres brasileiras estão fora do mercado de trabalho. Das que estão inseridas, 90% ainda se dedicam aos afazeres domésticos.

Outro dado muito utilizado para provar a suposta mudança do papel da mulher, é o fato de que 40% dos lares brasileiros são chefiados por mulheres.

Esse dado, no entanto, mostra apenas a desagregação da família, produto da crise do capitalismo. A chefia da família pelas mulheres pode se dar por ser a mãe solteira, por ter o homem abandonado o lar, por estar o homem desempregado e algumas vezes por estar ele em um emprego mais mal remunerado do que a mulher. No entanto, dificilmente se verá um homem “dono de casa”. A mulher que chefia a família apenas acumulou funções. É ao mesmo tempo responsável por garantir a sobrevivência da família e pelas tarefas domésticas. Do outro lado, nos 60% de lares chefiados por homens, há uma grande porcentagem de mulheres excluídas do mercado de trabalho e que se dedicam exclusivamente ao trabalho doméstico.

A promessa da solução individual

Os que atuam no movimento operário, popular, estudantil e outros, sabem a importância da tomada de consciência desses setores para o sucesso do movimento e mesmo para que haja movimento. A consciência se manifesta no progresso da organização para a luta coletiva.

Mas o conceito de “empoderamento” difere desses essencialmente, pois não é uma consciência para uma ação coletiva, organizada, política. A classe operária toma consciência e faz uma greve para conseguir melhorar suas condições de vida, e, em última instância para tomar o poder, única maneira de efetivamente mudar sua condição de explorado. A mulher “empoderada”, no entanto, é sozinha sua própria libertadora. O “empoderamento” conferiria à mulher a libertação da sua opressão.

Por que se fala em “empoderamento” da mulher, do negro, do LGBT etc. e não se fala em empoderamento do operário?

Porque ficaria evidente o absurdo da ideia. Significaria que o operário, oprimido pelo patrão capitalista todos os dias, submetido a longas jornadas de trabalho, e salários baixos a partir do momento em que tomar a consciência que é um ser sem direitos, escravizado, explorado, se libertaria da escravidão do trabalho. Promover tal ideia seria criar uma ilusão grotesca.

Mas em relação ao operário é evidente que essa concepção é falsa. Isso porque a classe operária tem uma longa tradição de luta, criou sindicatos, desenvolveu métodos de luta e inclusive tomou o poder do Estado em diversos países. Mas, fundamentalmente porque a classe operária é uma das duas classes sociais essenciais da sociedade.

A mulher, como o negro, e outros setores oprimidos, não constituem classes sociais. Eles permeiam as diversas classes, o que lhes confere um caráter muito mais heterogêneo que a classe operária.

O fato de não serem uma classe, com raízes na economia, é o que dá margem para a confusão sobre o caráter e a base da sua opressão.

Além disso, o tipo de feminismo e de movimento negro que coloca o “empoderamento”, ou seja, a solução individual, como central para a resolução do problema desses setores, são burgueses ou pequeno-burgueses.

Apenas as mulheres pertencentes à classe média ou à burguesia podem acreditar que o único obstáculo para a conquista da igualdade está na consciência de cada um; que os problemas são de concepção, de tratamento, opinião, de conquistar um espaço, e não problemas materiais fundamentais que impedem a mulher de se libertar.

Isso porque as mulheres dessas camadas conseguem muitas vezes solucionar esses problemas básicos, criação dos filhos, serviços domésticos, dependência financeira etc., em razão de sua condição privilegiada na sociedade. Com essa posição conquistada só restaria mesmo acabar com a “cultura machista” e levantar a auto-estima das mulheres, fazer com que ela perceba que foi colocada em uma posição de submissão ao homem e que precisa se libertar disso; em uma palavra, “empoderá-la”.

Essa visão, no entanto, não passa de ilusão. A esmagadora maioria das mulheres não está nessa posição e se todas elas são prisioneiras, reféns de uma dada situação material, todas as demais mulheres também estão. Assim, a única forma de libertar de fato a mulher é mudando essas bases materiais.

Um feminismo não revolucionário

O “empoderamento” como chave para a mudança da condição da mulher prevê por sua natureza a resolução do problema dentro dos marcos do capitalismo.

Em primeiro lugar porque se trataria de um processo essencialmente individual, que, como tal, não pode produzir transformações sociais. Segundo porque se a concepção do empoderamento não inclui as bases materiais que originam essa opressão, também não se dispõe a mudar essas bases.

As teóricas modernas do “empoderamento”, como a colombiana Magdalena Léon sugerem que a reversão da situação de restrição social a que a mulher está submetida por meio de políticas tais como a inserção em cargos de poder, mudança na educação, além de aumento da auto-estima, reorganização do trabalho doméstico, entre outros. Propostas essas que passam por dentro da sociedade tal como ela é, e que, segundo tais feministas, poderiam levar a mulher a conquistar a tão desejada igualdade.

Citamos aqui a própria Magdalena León para esclarecer o assunto do qual queremos tratar:

“É por isso que queremos, a partir da utopia dos Movimentos de Mulheres, assinalar que quando falamos de empoderamento das mulheres, queremos falar de poderes solidários, de poderes transformadores, de poderes gerativos e não de poderes de dominação, de poderes excludentes, de poderes que levaram à guerra, a soluções bélicas dos conflitos” (Poder e empoderamento das mulheres, 2013).

É, portanto, uma proposta positiva, pacífica. Exclui conflitos e “poderes de dominação”, ou seja, a luta política ou a opressão de qualquer setor (mesmo que seja a burguesia opressora), o que só pode se dar em conformidade com as classes dominantes e o atual estado de coisas. Na realidade, não se trata, de forma alguma, de poder, mas algo etéreo.

No mesmo artigo, Léon apresenta definições de diversos autores acerca do “empoderamento”. Todas elas contêm o mesmo traço subjetivo, de transformação do indivíduo e não da sociedade, sendo a de Kate Young a que melhor resume a concepção: “A alteração dos processos e estruturas que reproduzem a posição de subordinação da mulher como gênero”.

Ou seja, como dissemos anteriormente, a posição de subordinação da mulher não tem base na economia, na realidade material. Trata-se de “estruturas” que nada mais fazem que “reproduzir” essa posição, o que implica que é preciso influir nessas tais estruturas e simplesmente fazer com que elas parem de reproduzir tal posição.

Que essa posição está muito longe de ser revolucionária pode ser vista pelo fato de que ela é divulgada de maneira ampla e insistente por grandes empresas, como a Nestlé, por órgãos do imperialismo, como a ONU, a USAID, e mesmo representantes diretos da burguesia imperialista, como os políticos do Partido Democrático dos EUA.

Não só a campanha entre esses setores é enorme como podemos dizer tranquilamente que eles são a origem dessa ideologia.

Se houve uma ascensão social das mulheres de algumas camadas sociais, o que as levou a procurar alcançar uma igualdade principalmente de tratamento entre homens e mulheres, sendo respeitada e valorizada, nada melhor do que canalizar esse anseio para uma política demagógica e totalmente inofensiva.

Que cada mulher descubra o “poder” que tem dentro de si, que se enxergue como ser pensante, independente e que recupere sua auto-estima. Mas sem que isso abale as relações de propriedade, o sistema de dominação da burguesia e o poderio do Estado. A contestação deve se dar prioritariamente na esfera privada e individual; com a mulher buscando conquistar seu lugar nos “espaços” existentes, sem pretender acabar com eles ou transformá-los. Além disso, nada melhor do que mulheres que acreditam estar no caminho da sua libertação, mas que estão de fato totalmente isoladas e desorganizadas, iludidas com a prestidigitação da burguesia, que fala em empoderamento, mas está sempre pronta para dar o bote. O movimento feminista cai assim presa fácil de qualquer ofensiva reacionária. Não é à toa que o “empoderamento” se tornou o estribilho da burguesia imperialista supostamente democrática.

A luta das mulheres é fundamentalmente política

Como as mulheres podem então progredir na luta por sua emancipação?

A burguesia não foi capaz de promover essa emancipação nos seus momentos mais revolucionários, hoje será ainda menos. Sendo uma classe que se apoia na exploração, ela procura utilizar todos os pontos fracos para obter vantagens, lucros e para dividir as diversas camadas da população, fortalecendo sua dominação. Mesmo em seu momento mais revolucionário, não foi capaz de destruir a base familiar que dá sustentação à opressão da mulher.

Apenas a classe operária, que ao conquistar o poder acaba com a propriedade privada, pode mudar essa relação de coisas.

As mulheres, os negros, LGBTs e outros setores oprimidos só podem mudar efetivamente sua situação aliando-se a uma dessas duas classes fundamentais que estão permanentemente em luta.

Se acreditamos que a base da sua opressão está no sistema capitalista e que não pode ser destruída sem a destruição do próprio capitalismo, então é evidente que as mulheres em sua luta devem se aliar à classe operária.

Se, inversamente, o movimento de mulheres acredita que a opressão está em todo o lugar, em cada ser humano e existe independentemente da classe que está no poder e do sistema econômico e social, ele entrou, querendo ou não, em uma aliança com a burguesia.

Mas isso não significa que a resolução do problema da mulher deve ser esquecido, nem que as mulheres devem esperar o socialismo se braços cruzados.

Assim como a classe operária luta incansavelmente por seus mínimos direitos, por sua sobrevivência imediata, para melhorar suas condições de vida, por reformas sociais etc., mesmo que sua libertação efetiva da condição de explorado só possa ser alcançada por um governo dos próprios trabalhadores, também as mulheres devem se organizar e lutar politicamente em defesa de seus interesses imediatos.

Nesse sentido, a mulher em primeiro lugar deve se posicionar duramente contra a direita, que está em uma ofensiva internacionalmente e que ameaça em primeiro lugar os direitos e as condições vida das mulheres.

A luta da direita contra o direito ao aborto é parte da política reacionária de reforçar a escravidão da mulher, fortalecendo suas amarras com os deveres domésticos e a criação dos filhos. E para lutar contra essa enorme força social, apoiada no Estado capitalista, na polícia, no Judiciário, na imprensa capitalista, não basta se “empoderar”, é preciso se organizar de formar revolucionária para acabar com o poder da burguesia e estabelecer o poder da classe operária e dos oprimidos.

Evidentemente que a organização das mulheres para lutar politicamente passa pela consciência de sua opressão e de todas as formas em que se manifesta. No entanto, as mulheres devem ir muito além dessa compreensão. A mera transformação individual deve dar lugar à organização e luta política séria e direta contra a burguesia em aliança com a classe operária, única capaz de conduzir sua luta à vitória e de promover a sua libertação.

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