E o Oscar vai para… Donald Trump

Compartilhar:

É inevitável que o assunto da coluna desta semana seja o fiasco da entrega do Oscar no último domingo dia 26. É um dos assuntos mais comentados da semana. Mesmo quem não teve estômago para assistir as mais de três horas e meia de duração da premiação mais importante do cinema comercial mundial, blá, blá, blá…. ficou sabendo da enorme gafe cometida pela empresa contratada, há décadas, para apurar e guardar o segredo dos vencedores do prêmio.

Para os aficionados em séries de televisão, o “gran finale” que fechou o Oscar deste ano foi um verdadeiro “plot twist” no jargão dos seriemaníacos. Uma reviravolta ao estilo M. Night Shyamalan, o diretor de “O Sexto Sentido”.

A cerimônia, parecia um comédia romântica das mais previsíveis. Tudo acontecia da maneira mais enfadonha e cotidiana possível, festa cafona, discursos chatos, e “La La Land”, o favorito disparado, da crítica, público, sindicatos etc estava ganhando os principais prêmios, canção, trilha sonora, melhor atriz, melhor diretor… e o final já era praticamente certo, seria o vencedor de melhor filme como todas as previsões anunciavam. Era o filme ideal, fala de Hollywood, da busca pelo sonho, é otimista, apesar de um pouco melancólico, mas tinha o perfil ideal da Academia de Cinema de Hollywood. Mas uma troca, até agora misteriosa de envelopes, revelou o contrário.

Os prestigiados atores Warren Beatty e Faye Dunaway, duplas do célebre  “Bonnie e Clyde – Uma Rajada de Balas” (1967), depois de um pequeno silêncio para anunciarem o principal vencedor da noite deram a “La La Land” o prêmio. Dois minutos depois de que equipe e produtores subiram ao palco todo extasiados e sorridentes para receber a estatueta agradecendo a pai, mãe, cachorro etc é revelado o engano. O verdadeiro vencedor é “Moonlight – Sob a Luz do Luar”.

A gafe, histórica, foi revelada depois pelo ator Warren Beatty que disse ter recebido nos bastidores o envelope da premiação de Melhor Atriz, e que Faye Dunaway ao anunciar o filme leu apenas “La La Land”.

O que gostaria de comentar aqui é uma das possíveis causas, não da gafe, mas do resultado final do Oscar deste ano.

Uma das teorias mais plausíveis que li e que concordo é a de que a escolha de “Moonlight” tem um direcionamento certo, Donald Trump. Por quê? Porque o Oscar, apesar dos otários e inocentes úteis disserem o contrário, é um prêmio essencialmente político. Vide o que foi feito este ano para “reparar” o racismo de décadas da Academia com os negros. E em um ano em que a maioria esmagadora do “mundo do cinema” está contra Trump, o Oscar, símbolo desta indústria, não iria na contramão.

“Moonlight” foge dos padrões dos filmes de Oscar, é um filme de baixo orçamento e baixa bilheteria, não muito linear, atores desconhecidos, diretor iniciante, história que envolve cotidiano de negros em Miami, drogas, alcoolismo, homossexualismo. É um filme intimista, silencioso, não explica muita coisa e não tem a fórmula do bons contra os maus. Vários dos fatores que vão contra os “preceitos” da indústria roliudiana.

Em suma, é um filme contra tudo que Trump representa. A vitória de Moonlight é a conclusão de uma campanha orquestrada pela indústria do cinema que permeou todos os eventos de premiação tanto do cinema como da televisão contra o atual presidente dos Estados Unidos. Diga-se de passagem, uma indústria que apoiou e financiou a campanha de Hillary Clinton. Nesta cerimônia não houve o discurso inflamado de Meryl Streep, principal cabo eleitoral de Clinton, como no Globo de Ouro, mas o apresentador, Jimmy Kimmel, a cada frase se referia a Trump. O premiado com o título de melhor filme estrangeiro, o iraniano, “O Apartamento”, foi palco de protesto direto contra Trump com uma carta lida por representante do diretor Asghar Farhadi, contra as política de imigração do presidente. E a premiação de melhor filme não poderia deixar de ser uma provocação direta a ele.

Protestos políticos, dentro do Oscar, sempre tiveram, só lembrar do discurso inflamado de Michael Moore contra George W. Bush contra a invasão do Iraque, mas naquela ocasião, o diretor foi “calado” e não teve todo o tempo necessário para protestar. Teve o microfone retirado e música para abafar o discurso.

Para refrescar a memória vale destacar que os últimos filmes premiados com o Oscar, durante os dois mandatos de Obama, mandatos apoiados pela Academia, eram todos dentro do padrão roliudiano.

Aqui destaco alguns filmes premiados da era Obama, “Guerra ao Terror, (2010), “O Discurso do Rei” (2011), “O Artista” (2012), “Argo” (2013), “12 Anos de Escravidão” (2014),  “Birdman” (2015).

Resumidamente são filmes ou que falam de cinema, ou seja, “Hollywood por ela mesma” ou históricos que fogem da realidade ou diretamente políticos que exaltam a política imperialista. Destes citados destaco dois bastante significativos. O primeiro “Guerra ao Terror” (2010), filme que desbancou, de maneira “inusitada” o favorito daquele ano, “Avatar”, por quê? Porque apesar de ser considerado um retrato realista era história completamente fantasiosa sobre soldados no Iraque. . Tirando o fato de que “Guerra ao Terror” foi um filme que entrou para lista do Oscar de maneira muito suspeita, pois era uma produção de 2008 que já havia sido lançada diretamente em DVD, o principal filme é uma ode aos soldados norte-americanos que assassinam civis sistematicamente. Claro que no filme, eles não matam ninguém inocentemente. Já “Avatar”, superprodução, com personagens fantasiosos, num futuro longínquo, era uma crítica direta à política colonial do imperialismo de roubo de riquezas e destruição de países. Apesar de no filme alguns diálogos serem diretamente contra a política imperialista dos EUA, cito aqui, uma frase que o próprio James Cameron, diretor do filme, disse a respeito de “Avatar” em uma entrevista concedida à revista Veja: “Avatar tem uma mensagem clara contra o uso militar para fins imperialistas. Não está certo enviar soldados para matar iraquianos a torto e a direito apenas para garantir o fornecimento de petróleo.”.

No caso de “Argo” (2013), que também se encaixa no quesito histórico, precisamos lembrar que o anúncio do filme foi feito pela primeira dama Michelle Obama, ao vivo, direto da Casa Branca. O filme era uma homenagem à CIA mostrando como a organização, que financiou ditaduras pelo mundo afora, conseguiu, heroicamente, libertar norte-americanos do Irã, durante a revolução de 1979. Detalhe, a CIA era principal responsável pela ditadura iraniana antes da revolução.

Estes exemplos bastam para questionar a premiação de “Moonlight”. Nestes mesmos anos, filmes com o perfil do vencedor deste ano também estavam concorrendo e não ganharam. Entre eles, “Preciosa” (2010), “Clube de Compras Dallas (2014) e  “Boyhood” (2015).

Caso Hilary, a “democrata”, candidata da guerra, tivesse ganhado as eleições com o apoio de praticamente todo o mercado financeiro, dos artistas, da imprensa imperialista, do imperialismo europeu e da esquerda pequeno-burguesa, o filme vencedor com certeza, seria “La La Land”, mas como Trump está no poder, “Moonlight” é a melhor provocação possível.

artigo Anterior

8 e 15 de março: professoras são chamadas a dar uma lição

Próximo artigo

“Volta Dilma”: ponderações aos argumentos da esquerda

Leia mais

Deixe uma resposta