Rendição aos golpistas: Humberto Costa “amarelou” na Veja

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A entrevista do senador Humberto Costa nas paginas amarelas da revista Veja, uma dos principais porta-vozes da imprensa golpista, expôs de maneira bastante nítida a política de total rendição ao golpe por parte de uma importante ala do PT.

A entrevista com a sugestiva chamada “Hora de virar a página” foi reveladora das posições do senador petista:
“temos de nos adaptar. Não adianta mais ficar apenas no discurso de denúncia do golpe”.
Apesar do senador afirmar que “existiu verdadeiramente um golpe” , a política de “virar a pagina” indica uma profunda capitulação ao golpe. A melhor política “é deixar para lá”, ou seja, seguir com as atividades corriqueiras da política burguesa, como apoiar as candidaturas golpistas para as mesas do senado e da câmara de deputados, em troca de cargos nas comissões. Como se diz “vida que segue”.
Antes de falar das contradições que a entrevista expressa, é importante salientar que a mesma representa um importante documento histórico da total ausência de combatividade para enfrentar o golpe por parte de setores do PT e da Frente Popular e mais que isso evidência uma crença profunda nas instituições e no regime político semi-democrático do país.
O desenvolvimento da crise do governo Temer (surgido do golpe) ao invés da pretendida estabilização política e econômica tem levado a uma maior polarização política. Dessa forma, longe da consolidação do regime golpista defendida por Humberto Costa existe uma intensificação da instabilidade política, que não se esgotou com o impeachment.
O resultado das eleições municipais é utilizado para justificar sua rendição. ( “o resultado das eleições municipais obriga a gente a virar essa pagina”). Além do mais, “a população não quer isso que está ai, mas também não queria o que estava lá com Dilma” . Neste caso, para justificar a adaptação ao golpe, afirma-se que a queda de Dilma foi até mesmo apoiada pelo população, é a falácia da “impopularidade” de Dilma, (logicamente comprovada pela imprensa e institutos golpistas e pelos resultados de uma eleição controlada pelos próprios golpistas).
Assim, a versão golpista tupiniquim de que ninguém gostava de Dilma para justificar um golpe de Estado é compartilhada tanto pela direita golpista como o PSDB, DEM, Bolsonaro, como pela esquerda pequeno burguesa também golpista como PSTU (“as massas querem o Fora Dilma”), quanto pelo senador Humberto Costa, e até mesmo pela esquerda do PT (a corrente O Trabalho, em especial).
Em relação essa questão, é importante esclarecer que no caso do PSTU trata-se de uma capitulação pura e simples ao golpe, uma traição aos trabalhadores, na medida que participa de uma frente única com a direita golpista. Por sua vez, propalar a posição de que “o povo não quer Dilma” por parte de Humberto Costa (e os setores que ele representa) e pela esquerda petista nada mais é do que uma política de total rendição aos golpistas.
Ao longo da entrevista, o depoente revela sua falta de vontade para se opor aos golpistas, mas para não deixar por menos, ainda promove um espetáculo vexatório nas paginas amarelas da Veja. Assim, instigado pelas perguntas da revista golpista (“o senhor é favorável a que o PT admita publicamente ter se envolvido em corrupção, uma atitude que o partido não tomou até hoje? (…) O PT deve pedir perdão?) o senador apresenta sem rodeios a propalada  “autocritica” do PT, tão reivindicada por lideranças burguesas do PT como Tarso Genro, e mesmo pela esquerda pequeno burguesa dentro e fora do PT . “A autocritica é necessária, mas não é suficiente”, afirma o senador. É preciso não somente admitir publicamente que o PT esteve envolvido em corrupção, como deseja a revista golpista, mas também pedir “perdão”
Assim, a revista Veja conseguiu não apenas uma entrevista, mas uma verdadeira confissão, similar as conseguidas pela ditadura militar ao apresentar os ex- guerrilheiros confessando “crimes”, quase sempre, depois de tortura. Isso é revelador da total ineficácia da política professada por setores que se reivindicam críticos da direção do PT que advogam a necessidade de “autocriticas” para reconstruir o PT ou para criar outras alternativas.

A única autocritica é a luta contra os golpistas, mas é justamente isso que eles não querem fazer. A “autocritica” dos dirigentes do PT, como a entrevista de Humberto Costa, nada mais representa do que uma mera peça de propaganda da campanha tradicional da direita em torno da “corrupção”, o mantra golpista usado historicamente pela direita golpista como a UDN contra Getúlio Vargas, Juscelino Kubistchek e Joao Goulart e, mais recentemente, para derrubar Dilma.
A possibilidade de uma “virada de pagina” significa para uma parte do PT e da Frente Popular como o PCdoB , que é plausível uma “reorganização” do regime político no cenário pós golpe, através de um acomodamento e da diminuição dos atritos, permitindo um novo pacto entre setores fundamentais do capital (que deram o golpe) e a esquerda institucional, afastada do governo federal.
Neste sentido, a entrevista de Humberto Costa nos ajuda entender não somente os desdobramentos das propostas de conciliação com os golpistas no pós golpe, mas serve também para iluminar a natureza do impasse que levou a realização do impeachment sem enfrentamentos decisivos no decorrer da farsa do julgamento no senado.
Inicialmente, o próprio governo Dilma não ratificava a existência de articulações golpistas.

Somente, quando as engrenagens golpistas, inclusive por dentro do governo, estavam em pleno desenvolvimento é que começou uma tentativa de resistência, bastante parcial e impulsionada principalmente por setores do movimento operário e popular e por setores da esquerda, como o PCO, que denunciaram o golpe bem antes da sua efetivação. As denuncias seletivas de corrupção através da articulação da operação Lava Jato com a imprensa golpista, bem como as manifestações coxinhas visavam criar as condições para a derrubada do governo sem contestações, a frio como se diz. Entretanto a mobilização popular contra o golpe colocou em relevo que o impeachment era golpe de Estado.
Entretanto, depois da votação de aceitação do prosseguimento do processo de impeachment na Câmara dos deputados, em abril, o movimento contra o golpe entrou em um impasse político e retrocedeu.
A natureza do impasse era que um setor importante do movimento, um grupo expressivo dos parlamentares do PT, o PCdoB, e lideranças burguesas como Ciro Gomes, “avaliaram” (de acordo com seus interesses)  que não seria possível reverter institucionalmente o processo de impeachment, e que o melhor a ser feito era buscar alternativas que não significassem a permanência do governo eleito. Assim, o PCdoB passou a defender a tese de novas eleições, praticamente no dia seguinte da primeira votação na Câmara de deputados, e depois admitida pela própria presidente Dilma, o que significava o afastamento do governo eleito. Portanto, a busca por um arranjo com os golpistas foi um dos elementos que gerou confusão e faclitou a derrota da luta contra o golpe em 2016.
A política de acomodação com os golpistas é oferecida como uma posição de realismo político e de pragmatismo necessário para “apresentar uma alternativa para o futuro”. Entretanto, analisando em perspectiva, nada estaria mais longe da realidade, do que a visão propalada que a “virada de pagina” permitira um novo pacto institucional no pós golpe.
A crise do golpe e a fragilidade do lastro político dos partidos golpistas, que perderam as últimas quatro eleições presidenciais indicam uma tendência a um maior endurecimento do sistema, e não de reconstrução de uma nova etapa pacifica de conciliação de classe.
O verdadeiro sentido do golpe é a necessidade de governos autoritários para a implementação de um programa de maior ataque aos trabalhadores. Não é mais possível um acordo nos marcos do período anterior, não existe margem para governos com políticas contraditórias ‘reformistas fracas”, por isso o ataque sistemático ao PT e ao ex-presidente Lula.

Não se trata de ataques ocasionais, mas de uma política sistemática de liquidação da esquerda conciliadora tradicional, pois é efetivamente vista como concorrente dos partidos tradicionais burgueses e como um canal, ainda que distorcido das massas populares. A política de rendição política aos golpistas advogada na entrevista amarela de Humberto Costa, ainda que possa proporcionar pequenos espaços marginais no regime político, não é viável, e representa um beco sem saída para os trabalhadores.

 

*Antonio Eduardo Alves de Oliveira

Professor UFRB e colunista Diário Causa Operária

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