O golpe e os intelectuais “marxianos” universitários

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Como entender a crise política brasileira na atualidade? As disputas entre o parlamento e o executivo, o significado das coalizões do governo de Frente Popular, a crise do PT, o jogo da direita golpista dentro e fora do governo, a ação do movimento operário e popular e outros atores políticos?

A crise política brasileira tem elementos de uma crise espetacular, a disputa pelo poder, os grupos, partidos, a imprensa, o judiciário, os movimentos sociais, enfim a relação entre as classes, Estado e economia, passando ainda pela cultura política e pelo cenário internacional.

Assim, é possível abordar a conjuntura de maneira variada, entretanto, o que é incontornável é a caracterização política que houve um golpe de Estado no Brasil em 2016. Contudo, não é muito esclarecedora a esse respeito, as análises oriundas da ciência política tradicional.

Os cientistas políticos que participam dos programas televisivos e das mesas de debates nas universidades geralmente apresentam um discurso empolado, devido ao predomínio de correntes teóricas conservadoras, que reivindicam uma pretensa neutralidade e são parte dos discursos ideológicos feitos sob medida para justificar o golpe.

Aqueles que se reivindicam marxistas ou “marxianos” (na linguagem ridícula do marxismo acadêmico) na sua maioria, não apresentam formulações mais efetivas sobre o golpe. Os marxianos, não fazem senão misturar as correntes teóricas predominantes nas universidades com uma linguagem pretensamente marxista para efetivamente não dizer nada e em muitos casos apoiar indiretamente o golpe. Neste discurso supostamente baseado na leitura dos textos dos autores marxistas ou classificados como tais, geralmente citados com fartura, os nossos intelectuais apresentam abordagens mecânicas e comprometidas com as posições da esquerda pequeno burguesa, marcadamente caracterizadas pela superficialidade intelectual  salvo as exceções que confirmam a regra).

Assim sendo, os intelectuais ligados à esquerda pequeno burguesa (PSTU,PSOL e PCB) procuram fazer malabarismos para traduzir as posições francamente ultraesquerdista para dentro de um ambiente acadêmico conservador. Por sinal, no mundo acadêmico, impera o chamado “produtivismo”, limitador de um conhecimento critico, que essa esquerda acadêmica “marxiana” aderiu . Isso, tem como subproduto, uma verdadeira aberração, “marxistas” que não tem tempo para a luta de classes.

Os autores mais festejados do “marxismo – marxiano”, mesmo aqueles com um passado militante, evitam qualquer tipo de participação política real, nem mesmo na ultralimitada luta sindical no movimento docente. Na verdade, a universidade, é apresentada de uma forma idealizada, como uma instituição irreal, “onde é possível a construção de um espaço critico”, pela ação dos fabulosos mestres da esquerda acadêmica, que constroem a sua Torre de Marfim perfeita e ” critica”.

Importante destacar os posicionamentos mais extremados dessa esquerda pequeno burguesa. Neste caso, os morenistas do PSTU são, sem dúvida, o caso mais exemplar, uma vez que defenderam abertamente a derrubada do governo Dilma, adotando uma postura de ataque sistemático contra qualquer pessoa que ousou dizer que houve golpe de Estado em 2016, sob a alegação, nada marxista por sinal, que todos são iguais, e que o PT é igual à direita, entre outras pérolas.

O desenvolvimento da crise política evidenciou o caráter golpista do ultraquerdismo, adotados pela quase totalidade da esquerda pequeno burguesa, do PSTU ao PSOl passando pelo PCB. Assim, o “marxiano acadêmico”, apresentado erroneamente como ‘Marxismo radical” ou mesmo como uma vertente de “trotskismo” teve seu conteúdo desnudado pelo golpe de Estado.

Os setores de classe média universitária que orbitavam durante os últimos anos no PSTU, na sua quase totalidade (inclusive as “estrelas de maior grandeza” das hostes morenistas como Valério Aracy, Ruy Braga, Alvaro Bianci, entre todos os outros) protagonizaram uma debandada histórica, que praticamente liquidou o partido. Por sua vez, os intelectuais ligados ao PSOL e ao PCB por serem partidos mais adaptados a mentalidade da classe média, predominante nas universidades, e tendo professores com prestigio no mundo acadêmico, mitigaram o discurso, procurando se distanciar, pelo menos na aparência, do ultraesquerdismo golpista do PSTU. Mas como diz o ditado ” o macaco se escondeu, mas deixou o rabo à vista”.

Os aderentes do PCB, adotaram a estranha máxima para um grupo que se reivindica comunista, de que “em boca fechada não entra mosca” e “nada a declarar sobre o golpe de Estado”, ou seja disseram muito ao não dizer nada. Nem sequer foram capazes de aprender da experiência desastrosa de 1964 quando não forma capaz de prever e nem mesmo ver o golpe de estado; com o que muitos de seus militantes e todo  povo brasileiro pagou caro.

Por sua vez, uma parcela significativa da intelectualidade ligada do PSOL disfarçou o apoio ao golpe, defendendo a ” operação Lava Jato” e pedindo ” novas eleições”.

Os textos marxianos são recheadas de lugares comuns, utilizando até a náusea, o bordão que não é possível prever nada. Além do mais, uma característica marcante dos “marxianos” é a utilização de uma linguagem rebuscada e hermenêutica, que assim como no conto de Lima Barreto, “o homem que sabia javanês’ serve para enganar os incautos, no caso o público universitário, escondendo o fracasso analítico desse marxianismo de narrativa.

Estes intelectuais ligados aos partidos pequenos burgueses radicais, apresentaram uma previsão comum, quase um dogma religioso de que “não existe motivo para pânico”, que “não há golpe”, pois o governo Dilma e PT são ligados aos interesses “hegemônicos” ( termo predileto da maioria dos marxianos) do capital. Além disso, os marxianos acadêmicos fazem uma frente ideológica e prática com a direita, em especial na adesão aos bordões tradicionais udenistas de “luta contra a corrupção”, afinal corrupção não pode ser aceita por ninguém, quanto mais por eles ( bem ao gosto das classes médias os marxianos adoram os discursos morais).

O problema é que como se diz, a realidade é insistente e agora, com a realização do golpe, como encaixar a total falta de concretude da análise dos marxianos da esquerda radical? Podemos alimentar a esperança que uma nova reflexão e discussão após o fracasso da previsões? De forma alguma. Se os fatos não estão de acordo com as brilhantes formulações dos renomados interpretes marxianos de esquerda, pior para os fatos. Para os marxianos é uma necessidade fundamental manter a imagem de esquerda radical, um capital cultural a ser preservado na selva do produtivismo.

Neste sentido, não se pode admitir nem por brincadeira que os doutores analistas “marxianos”, que gastam muita “tinta”  (ou teclado) sobre “marxismo” e que publicam centenas de artigos, dezenas de livros por ano sobre a “luta de classes no Brasil e no Mundo”, e que este ano farão diversos seminários sobre a Revolução Russa, não souberam ou não quiseram enxergar o golpe de Estado no Brasil.

E a luta contra o golpe? Bem, ai já é uma extrapolação, afinal não é problema digo de nota para pessoas tão ocupadas em produzir artigos irrelevantes.

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