Daniel Blake não é um Rolling Stone

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Recentemente, a revista Exame publicou uma capa com uma foto de Mick Jagger, trazendo o seguinte título: “O que você e ele têm em comum”. Logo abaixo, a revista ponderava, sem dedos: “Talvez não seja a fortuna, nem o rebolado, nem os oito filhos. Mas, assim como Mick Jagger, você terá de trabalhar velhice adentro”. Comparando o destino dos meros mortais com o do notável rolling stone, a revista queria, na verdade, naturalizar ou preencher de glamour a ideia anômala de que a Reforma da Previdência, tal como projetada pelo atual governo golpista, tornou-se inevitável e indiscutível.

A expressão “você terá de trabalhar velhice adentro” certamente subestimava a inteligência do leitor, apresentando o trabalho na velhice como algo normal e inexorável, mas também tentava driblar duas evidências lógicas. Em primeiro lugar, escondia a evidência de que o velho Jagger trabalha simplesmente porque quer, não porque tem de trabalhar. Em segundo lugar, escondia a evidência de que existe um abismo incomputável entre a riqueza do velho Jagger, que trabalhará até quando quiser, e a pobreza dos trabalhadores brasileiros, que terão de trabalhar até a morte segundo a proposta golpista. De fato, com esse malabarismo retórico, a revista procurava adestrar os leitores em torno de suas posições políticas, evitando falar, por exemplo, que o velho Jagger há tempos leva uma vida bastante mansinha.

Um pouco de noção da realidade, contudo, faz bem. Nada semelhante a uma velhice recheada de fortuna, mulheres e carros de luxo poderia ser dito sobre Daniel Blake, o protagonista do último filme de Ken Loach. No filme Eu, Daniel Blake, que ainda está em cartaz em algumas salas de cinema, o protagonista de meia-idade, que é um ser humano de carne e osso como todos nós e não uma estrela vagando no céu das divindades, sofre um ataque cardíaco, sendo desaconselhado pelos médicos a retornar ao trabalho. Porém, quando ele tenta receber os auxílios temporários do governo ou viabilizar, enfim, a sua aposentadoria, vê-se envolvido numa saga dolorosa e interminável, esbarrando em todas as engrenagens bizarras da burocracia. A situação de penúria financeira logo se agrava, sendo notáveis as concepções explícitas ou subjacentes dessa sociedade capitalista na qual “o velho”, quando improdutivo, nada mais é do que um ser imprestável.

Nos filmes do cineasta inglês Ken Loach, assim como nos filmes do conterrâneo Mike Leigh, segue-se aquela tradição cinematográfica do neorrealismo inglês, o free cinema, movimento cinematográfico que surgiu na Inglaterra na década de 1960, e que se estabeleceu e se desenvolveu como uma espécie de “resposta artística” para o tenebroso período de desemprego e miséria dos trabalhadores durante o governo Thatcher. Ken Loach foi integrante do movimento  ao lado de Lindsay Anderson e Karol Reiz e se mantém fiel até os dias atuais dando voz aos trabalhadores e aos oprimidos da sociedade capitalista.

A despeito da presença de certos elementos cômicos, tudo nesses filmes está carregado com a força de indignação que expressa o tema preferencial desse cineasta: os efeitos funestos do capitalismo sobre a classe operária dos subúrbios londrinos ou de outras cidades e até de alguns países como em outros filmes do cineasta, como “Terra e Liberdade” e “Pão e Rosas” .

O estilo de cinema de Ken Loach, que é sempre direto e límpido, versado nos modos neorrealistas que lhe aprazem, impedindo, portanto, qualquer confusão a respeito de seus propósitos, talvez tenha atingido certa perfeição neste Eu, Daniel Blake, filme que recebeu o Palma de Ouro no Festival de Cannes de 2016. Evidentemente, o que nele se destaca é mesmo a situação desesperadora do protagonista, apresentada sem rodeios. Para o espectador brasileiro, a situação precária de Daniel Blake funciona, na verdade, como uma figuração da situação precária de todos os trabalhadores brasileiros, cuja velhice já desnudada ou ainda se desnudando, especialmente nesses tempos do escárnio golpista, nada tem em comum com a velhice gloriosa de um célebre rolling stone.

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