#OscarsSoBlack? Não! Uma festa de brancos!

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A lista de indicados ao Oscar já saiu há algumas semanas, mas a premiação ainda não aconteceu, somente no próximo dia 26 de fevereiro. Vale aqui destacar como o principal prêmio de cinema do mercado mundial tratou de se desculpar com o fato de que nos últimos dois anos, nenhum ator negro havia sido indicado. Com o vexame que ocorreu no ano passado com o boicote organizado por alguns atores e profissionais do cinema negros como o ator Will Smith e o diretor Spike Lee, a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, rapidamente tentou consertar o estrago. Resultado é que este ano houve recorde em indicações para profissionais negros do cinema.

Ao todo são 18 negros indicados a prêmios diversos como direção, produção, edição, direção de fotografia, roteiro e seis indicações para atuação, um recorde já que o maior número em cerimônia anterior havia sido sete no ano de 2009. Outros recordes são, três atrizes negras numa mesma categoria, a de atriz coadjuvante. Viola Davis por “Um Limite Entre Nós” que também bate o recorde de indicação feminina, três no total, Octavia Spencer por “Estrelas Além do Tempo” e Naomi Harris pelo filme “Moonlight: sob a luz do luar”. Entre os indicados a melhor filme três são com temas relacionados a conflitos raciais. “Moonlight: sob a luz do luar”,  “Estrelas Além do Tempo” e “Um Limite Entre Nós”.  Há ainda indicações para dois roteiristas negros, um diretor de fotografia, dois produtores negros, um editor e cinco diretores negros, sendo um na categoria principal e outros quatro na categoria de melhor documentário. Aliás, nesta categoria três filmes tratam de maneira bastante incisiva a questão do negro nos Estados Unidos, “13ª Emenda”, da diretora Ava Duvernay, sobre o regime de escravidão e a superlotação das prisões norte-americanas, “Eu não sou seu negro”, do haitiano, Rauol Peck, que conta por meio de livro inacabado do escritor negro James Baldwin como o negro foi e é tratado nos Estados Unidos e “O. J.: made in America”, de Ezra Edelman, um documentário de quase 8 horas de duração que mostra, por meio  da saga do julgamento de O. J. Simpson nos anos 1990 várias consequências, entre elas o tratamento de cachorro que a polícia norte-americana tem com os negros.

Esta reviravolta na situação de um ano para outro deve-se principalmente pelo vexame que a Academia passou em 2016 sendo acusada abertamente por diversas personalidades artísticas de racista. Tanto que como forma de compensar o desastre nas indicações, na cerimônia do ano passado o apresentador convidado foi o ator negro Cris Rock que inevitavelmente falou do assunto em vários momentos da apresentação o que tornou a premiação em um show de demagogia com os negros. Para remediar a situação a atual presidente da Academia, a negra, Cheryl Boone Isaacs introduziu ao seleto grupo de integrantes da academia, ou seja, dos votantes, 683 pessoas do mundo do cinema de diversas nacionalidades e etnias, muitos negros e mulheres, para tentar amenizar a verdadeira “muralha” branca e masculina que é a academia. Para se ter uma ideia do quadro, até o ano passado, do total de integrantes, pouco mais de seis mil,  93% brancos e 76% homens. Este ano houve uma mudança significativa nas indicacões, mas isso não garante que os prêmios atinjam estes negros indicados e que nos próximos anos mais negros apareçam nas premiações.

O total desprezo aos negros no Oscar é de longa data. Vale destacar que em quase 90 anos de Oscar de um total de mais de 3100 estatuetas entregues a profissionais do cinema, cerca de 30 foram destinados a negros, menos de 1% deste total. Que a primeira atriz negra a ganhar um Oscar, em 1940, Hattie McDaniel pelo filme “E o Vento Levou” foi obrigada a se sentar em uma área destinada a negros, afastada dos demais participantes da cerimônia que ela recebeu o prêmio. Que o primeiro ator negro premiado em uma categoria principal foi em 1964, Sidnei Poitier, 35 anos depois da primeira cerimônia realizada e que o segundo ator negro a ganhar o Oscar na mesma categoria, Denzel Washington, foi 38 anos depois, em 2002. E que a primeira atriz negra a conquistar o Oscar na categoria principal foi também em 2002, 73 anos da primeira cerimônia.

O Oscar é a premiação do mercado de cinema norte-americano, não reflete o cinema mundial. Na premiação não está em questão a qualidade dos filmes e nem o talento de atores, diretores, técnicos etc, o que vale é o dinheiro. O Oscar ofusca festivais muito mais relevantes para o cinema mundial como o Festival de Cannes, de Berlim, Veneza, Bafta na Inglaterra, César na França entre outros tudo porque o que manda é o dinheiro. É óbvio que algumas vezes talento e dinheiro se encontram, mas o que dita as regras no Oscar é o lucro. Por isso o Oscar é uma festa de brancos, homens e ricos, são estes os detentores do dinheiro. Os negros são um adendo que vez ou outra inevitavelmente aparecem, por mérito próprio ou por pressão como é o caso deste ano, mas que não são imprescindíveis para a “festa do cinema”. O aumento deste ano se deve a uma pressão da opinião pública artística e mesmo popular que colocou a questão do negro, principalmente nos Estados Unidos com os constantes assassinatos de negros pela polícia, na ordem do dia. Isso não tira o mérito dos indicados, aliás há negros talentosos no cinema, todos os anos. Mas não é o número de indicados negros este ano que vai mudar o caráter do Oscar, uma festa de brancos onde os negros são chamados, muitas vezes a prestarem serviço e não festejarem como os outros convidados.

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