Carnaval com mulata ou sem mulata?

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A luta da esquerda pequeno-burguesa contra o dicionário

Neste carnaval não podemos mais usar o termo “mulato”. O termo “mulato” terá de ser banido da boca das pessoas, dos dicionários e dos livros. Será preciso um grande empenho editorial para corrigir os livros de história, os romances, os livros de antropologia e de sociologia etc.

Dessa forma, o romance de Aloísio Azevedo, que inaugura o movimento naturalista no Brasil, O mulato, deverá ser renomeado para algo como O portador de hibridismo afro-europeu.

Marchinhas carnavalescas também serão banidas. O teu cabelo não nega, Mulata assanhada e Nega do cabelo duro. Não confundir Nega do cabelo duro com a canção horrorosa de Luiz Caldas, chamada Fricote (“Nega do cabelo duro, que não gosta de pentear…”).

Aliás, essa música, que foi um grande sucesso no rádio em meados da década de 1980, hoje provoca reações indignadas, acusada de ser racista e machista. Mas a loucura não para por aqui. Encontramos, num sítio da internet, a seguinte pérola: “12 músicas que são extremamente machistas e que você canta sem perceber”. E entre elas estão: Esse cara sou eu (Roberto Carlos), Mesmo que seja eu (Erasmo Carlos), Ai que saudade da Amélia (Mario Lago), e até mesmo Run for your life dos Beatles.

A esquerda pequeno-burguesa adora reprimir a língua dos outros. Certa vez, quando o PSTU ainda se chamava Convergência Socialista, publicou, em seu jornal, uma matéria dizendo que Castro Alves era racista. Não se tratava apenas de exagero, mas de falta de inteligência, pois criticava um termo que o maior lutador pela abolição da escravatura no Brasil teria dito. O que o autor do artigo não entendeu é que Castro Alves colocava aquela palavra na boca de um escravagista. Era a fala da personagem e não do autor.

Por aí se vê aonde vai parar esse tipo de paranoia. E esse mesmo PSTU, no carnaval do ano passado publicou no Facebook umas fotos ridículas, caricatas, com as seguintes legendas: “Neste carnaval pode tudo, menos ser machista (homofóbico, racista).” Querem “organizar” o carnaval, a única festa popular que, no mundo inteiro, é desorganizada. E a desorganização é o verdadeiro espírito do carnaval.

No carnaval as pessoas se vestem de palhaços; homens se vestem de mulher e de bebês; mulheres se vestem de homem; e até o rei é ridicularizado. O carnaval é uma festa medieval, com a qual nem a igreja se metia, pois era a única época do ano em que as pessoas podiam extravasar, fazer o que quisessem.

A proibição de qualquer tipo de manifestação no carnaval nada mais é do que uma ação para por fim a essa festa.

Quanto às palavras que se querem proibir, é algo mais grave ainda. Primeiro porque põe limites à liberdade de expressão. Já chamadas por alguns de liberdade de repressão. Depois, porque abre caminha para todo e qualquer tipo de perseguição. Seja ela política, seja ela judicial.

Há exemplos graves disso. Ninguém, nos Estados Unidos pode criticar as ações sionistas na Palestina, pois é logo taxado de antissemita. O resultado é sempre o mesmo: o silêncio. E, a partir dessa imposição ao silêncio verbal, cria-se mecanismos para o silêncio intelectual, o que resulta no controle da mente e do espírito daqueles que pensam. Ao fim e ao cabo, a imposição do silêncio é a criação de autômatos.

Mas esse fim está mais próximo do que se imagina. O exemplo da Convergência Socialista deixa isso claro. Mas tomemos este outro exemplo que é a mulata, a grande figura do carnaval brasileiro.

O carnaval brasileiro é, sem dúvida, o melhor do mundo. E quem se destaca nesse carnaval é a mulata. É a época do ano em que ela se torna a figura mais importante do país. Em que outro lugar do mundo uma mestiça tem tanto poder?

Querer tirar de nossa mulata o título de mulata é querer dar a ela a mesma condição de insignificância que tem o povo pobre em geral, desprezado, oprimido, dominado.

Mas é preciso dizer que a língua com todos os seus vocábulos é um organismo em transição, em constante mudança. Se multa teve, outrora, o sentido de mula, hoje já não tem mais. Mulata significa hoje apenas uma coisa: mulher bonita. É o que vem à mente de todas as pessoas quando se ouve a palavra.

Querer ressuscitar um sentido que a palavra já não tem é sim desprezar a mulher. Toda pessoa que algum dia se orgulhou de ser chamada de mulata passará a ter vergonha disso e começará a se achar não mais uma mulher bonita, mas uma simples mula de carga.

Não se deve mexer na língua do povo. O povo é quem faz a língua que fala, e é ele, e apenas ele, quem lhe determina o sentido dos termos.

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