A Radiografia do Golpe, por Jessé Souza

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Os fios condutores dos golpes de Estado, inclusive o atual no Brasil, são sempre escamoteados, justamente por aqueles que realizaram os golpes. De uma maneira mais ampla, a realidade é apresentada de maneira confusa e fragmentada para impedir uma clarificação de como os ‘donos do poder” promovem uma fraude bem perpetrada contra o povo.

Na obra intitulada “A radiografia do golpe”. Entenda como e por porque você foi enganado e no artigo O golpismo de ontem e o golpismo de hoje ( publicado como capitulo em A Tolice da Inteligência brasileira) Jessé Souza, ex- presidente do IPEA no governo Dilma e destacado intelectual brasileiro apresenta uma instigante abordagem sobre o papel da imprensa, do judiciário e das elites do dinheiro no golpe de Estado contra a presidenta eleita Dilma Rousseff.

Na sua construção analítica, em especial no livro A Tolice da Inteligência brasileira, mas também presente na Radiografia do Golpe, Jessé Souza desenvolve sua argumentação de maneira polêmica contra os cânones do pensamento social brasileiro( Gilberto Freyre, Sergio Buarque de Holanda, Raymundo Faoro, entre outros). Trata de uma critica mordaz, marcante nas formulações do autor ao longo da sua produção intelectual contra os pressupostos teóricos da “inteligência que vai distorcer a história e a compreensão do país para todas as outras classes por meio das universidades e das escolas.”

Independente das posições que podemos tomar em relação as recriminações apresentadas contra os autores clássicos, é interessante o debate sobre como determinadas formulações foram sendo acomodadas para proporcionar a construção de determinado “consenso’ interpretativo, que gera submissão. A critica de Jessé Souza sobre o papel dos “ intelectuais colonizados da universidade” é contundente, decorrendo que “a elite do dinheiro precisa de outras elites.” Sendo que “a primeira elite a ser comprada é a intelectual.”

Além disso, é inegável como salienta o autor que “ no cotidiano das universidades, na discussão acadêmica e no debate público, no entanto , é a defesa do status quo, das pequenas distinções e vaidades e das hierarquias existentes que assumem a dianteira por meio do sacrifício do valor da verdade. “

Entretanto, é exagerada a concepção manifesta de que essas teorias são responsáveis por “escravizam o nosso espírito e nos fazem agir contra nossos melhores interesses.”, portanto, advogando um idealismo como principal fator explicativo. Não é objeto dessa resenha, aprofundar esse debate sobre o sentido geral das teorias e noções desenvolvidas pela inteligência brasileira nem muito menos as apreciações criticas formuladas por Jessé Souza.

O que é mais relevante a ser ressaltado é a inestimável contribuição dos textos de Jessé Souza sobre a crise política brasileira, na medida que representa um importante posicionamento político contra o golpe e contribui para uma compreensão dos motivos dos atores em disputa.

No primeiro capitulo do Radiografia do Golpe, o autor apresenta como os golpes realizados no Brasil nunca foram contra a corrupção, mas sempre foram realizados para garantir mais dinheiro para a elite do dinheiro fácil.

Dessa forma, as benefícios corporativas e os mecanismos de captura do Estado pela Elite do dinheiro “são encobertas sob o véu espaçoso da farsa de guardião da moralidade pública, montada para os tolos. “ ..”TV e imprensa , sócia na rapina executada pela elite do dinheiro. A farsa que se construiu midiaticamente foi satanicamente refinada e sofisticada. “

Pode ainda ser notado, o suposto combate contra a corrupção e a mobilização moralista da classe média tem como finalidade o combater e mesmo derrubar governos nacionalistas ou/ de esquerda. Sendo que essa verdadeira fraude política, não é uma novidade da atual crise política, pois como é destacado no artigo O golpismo de ontem e o golpismo de hoje “em todos os casos a classe média conservadora foi usada como massa de manobra na tentativa de derrubar os governos Vargas, Jango e agora Lula/Dilma e conferir o “ apoio popular” a consequente legitimidade para esses golpes, sempre no interesse de meia dúzia de poderosos. “

Quanto mais o governo cedia aos golpistas, mais os ataques eram intensificados pela mídia, sendo que a “seletividade da questão da corrupção, ao se concentrar apenas no PT, procurando atingir de qualquer modo o ex-presidente Lula. “

Em relação ao significado da corrupção no capitalismo, e como a classe média é fisgada pelas campanhas seletivas contra a corrupção são apontados duas questões importantes:

1) O moralismo das classes médias é sempre em relação ao outro ( políticos, PT, governo, pobres do Bolsa família que são comprados para votar no PT,etc): “ o moralismo da classe média no Brasil sempre foi extremamente seletivo e antidemocrático ao tempo. Sua seletividade implica ver o mal sempre “fora de si mesma” e nunca em sua própria ação cotidiana de exploração de outras classes, de quem ela rouba o tempo, a energia e qualquer possibilidade de redenção futura. “

2) O moralismo das classes médias não apresenta um conteúdo político claro, sendo inclusive hostil a própria política e aos partidos, vistos como “ impuros” : “o moralismo de classe média sempre une o desprezo pela política em geral e a busca por uma “virtude idealizada”… A corrupção galvaniza a solidariedade ‘emocional” das classes médias, que se imaginam moralmente superiores as outras, e confere respeitabilidade moral e política a esses assaltos à soberania popular.”

Não obstante, esses fatores do moralismo seletivo das classes médias, salienta o autor que a corrupção ou arte de enganar na busca incessante pelo Lucro, é endêmica no capitalismo, assim como monopolização e o processo de instrumentalização do Estado pelos capitalistas.

Além do mais, é apresentada uma critica a visão Weberiana de que existe uma oposição absoluta entre “capitalismo aventureiro” enquanto capitalismo de saque e de grandes lucros eventuais e “capitalismo moderno” sóbrio e do lucro cotidiano, mas justo e contido.”

Essa é a mesma visão apresentada pelos procuradores da Lava Jato, que a corrupção seria segunda pele do brasileiro, uma vez que nossos colonizadores foram os Portugueses , por outro lado, os Norte-americanos não seriam corruptos, pois foram colonizados por Ingleses. Assim, o Capitalismo moderno é entendido não somente como “ganho em racionalidade”, mas também como “ganho em moralidade”.

Isso não poderia estar mais longe da verdade. o capitalismo norte americano é infinitamente mais corrupto do que o brasileiro. Na verdade, não existe critério possível de comparação. A noção de que países periféricos ou atrasados como uma republiqueta de banana seriam mais corruptos do que puro EUA, é uma tolice sem precedentes. Como principal capitalista do mundo, com uma imensa riqueza acumulada, os Estados Unidos e as megas empresas multinacionais são as grandes promotoras da fraude, manipulação, corrupção e saque no mundo inteiro. Jessé Souza apresenta como exemplos conhecidos, entre muitos, o saque americano ao petróleo no oriente médio e a fraude na crise de 2008: “ o Capitalismo monopolizado de hoje não só fabrica balanços falsos de empresas e países com interesse de lucro e cria a ilusão de que grandes empresas e bancos fraudulentos são “grandes demais para quebrar” ( como ficou patente na crise financeiro de 2008).

No capitulo 2 O golpe “legal” e a construção da farsa é destacado que como as pautas bombas no congresso nacional e as noticias negativas no terreno econômico alimentava a “Crise política criada e manipulada midiaticamente. As manchetes diárias constroem a artilharia pesada contra governos. “

O golpe teve como um dos grandes articuladores as empresas de comunicação. Sem a construção das narrativas pela mídia não teria acontecido a desestabilização do governo Dilma, a Lava Jato e mesmo o aprofundamento da crise econômica, uma vez que os dados eram manipulados e as perspectivas negativas eram criadas.

Depois da quarta derrota consecutiva, as forças da oposição conservadora chegaram a conclusão que seria preciso utilizar todos os arsenais para retirar o governo do PT de qualquer forma, neste esquema comandado pela elite endinheirada e pelo complexo jurídico-policial, “A imprensa é fundamental nesse processo e primeiro elemento da estratégia de fabricar um golpe”. Esse processo pode ser percebido, antes do impeachment na maneira como a mídia se apropriou das manifestações de 2013, criando uma imagem de “povo contra o governo’ e “ povo contra a corrupção”. A manipulação da mídia dos protestos visava “pautar” os protestos. “ Essa pauta foi pensada no sentido tanto de construir um fio condutor anti- corrupção” expressa na PEC 37 que dava garantias para policia, Ministério Público e poder judiciários a capacidade de investigar, acusar e julgar. Constituindo uma sólida aliança entre a mídia e aparelho repressivo do Estado.

Para ser possível a quebra dos direitos democráticos e rasgar os votos de mais 54 milhões de eleitores, foi preciso a votação do impeachment pelo congresso nacional, mas a campanha da midia golpista em torno da corrupção precisa de uma materialidade com aparência de “imparcialidade” e “ anti corrupção”, que evidentemente o congresso nacional não poderia preencher. Assim “É necessário legitimar o assalto ao principio da soberania popular como única fonte que permite vincular legalidade e legitimidade do regime democrática e representativo.”

Neste sentido, é um equivoco apresentar o impeachment como sendo tão somente um golpe parlamentar, pois foi preciso a construção de uma rede envolvendo uma articulação entre a imprensa, os representantes políticos e a elite conservadora. Um aspecto fundamental nesta operação de encobrimento do golpe e criação de uma legalidade e legitimidade foi o papel desempenhado por um ator institucional que agrupou e acionou os instrumentos vinculadas a campanha pré – fabricada. Esse personagem institucional não poderia ser os parlamentares do congresso nacional, apesar da votação ali acontecer, seria necessário um elemento supostamente apolítico, em 1964 foram os militares e em 2016, o judiciário.

Em contexto de “ressentimento contra os de cima ( corruptos e responsáveis por todas as mazelas) e de baixo ( que não sabe votar e se deixam manipular)” o papel tutelar do judiciário é decisivo, na medida que são apresentados como elementos exteriores da política e como defensores do interesse público.

“esses órgãos não apenas recrutam seus quadros prioritariamente na classe média conservadora e moralista. Todos os interesses materiais e ideais dessas corporações – com alguns dos mais altos salários da República, além de benesses e privilégios de todos os tipos, aliados ao prestigio social, especialmente em sua classe de origem, reservado aos que lutam contra a corrupção”.

Os textos aqui resenhados têm o mérito de apresentar de maneira cabal como o golpe (impeachment) contra a presidenta Dilma e o PT foi produto de uma associação entre elite do dinheiro, grande imprensa, .complexo jurídico policial

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