Meryl Streep é contra a violência, de Trump, mas votou na candidata da guerra

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João Silva

Na última semana, precisamente no dia 8 de janeiro, houve a premiação do prêmio Globo de Ouro que destaca os melhores na TV e cinema norte-americano. A cerimônia que é considerada uma prévia para o Oscar teve como principal assunto, não os ganhadores das principais categorias, filme, diretor, atriz e ator, mas o discurso da atriz norte-americana, Meryl Streep.

A atriz que também concorria pelo papel da cantora de ópera, Florence Foster Jenkings, ao prêmio de melhor atriz de comédia ou musical, não foi premiada, mas foi homenageada com um prêmio honorário, o Cecil B. De Mille, para valorizar o conjunto da obra. Aproveitou a oportunidade, em seu discurso de quase sete minutos, para atacar exclusivamente o novo presidente norte-americano, Donald Trump, sem claro, citá-lo diretamente.

O discurso da atriz atacando Trump foi anunciado pela imprensa como comovente e emocionante tendo o apoio da maioria dos artistas presentes e da organização do evento, a Associação dos Críticos Estrangeiros em Hollywood.

O que poderia parecer uma atitude até certo ponto espontânea da atriz diante do resultado das eleições com a vitória de Trump na verdade não passa de uma campanha de grande parcela do cinema para a Hillary Clinton. Primeiro porque Meryl Streep fez campanha pública pela eleição de Clinton com discurso na convenção democrata em favor da candidata. A atriz foi escolhida por Clinton para ser a interprete dela em uma possível cinebiografia. Há todo um movimento político no cinema que apoiou e apoia Clinton em oposição a Trump, não é supresa que a maioria dos presentes na premiação ovacionaram Meryl Streep. Vale ressaltar que Clinton foi a candidata que mais recebeu financiamento em Hollywood superando Bernie Sanders e Trump. O diretor esquerdista Michael Moore realizou às pressas, poucas semanas antes da eleição norte-americana, um documentário pró-Hillary mostrando, como se fosse possível, o lado humano da candidata com o intuito de atrair eleitores. O filme foi exibido em 30 cidades norte-americanas. E mais recentemente, poucos dias após a premiação, um grupo de artistas, muitos deles presentes no Globo de Ouro, como Emma Stone e Natalie Portman, fizeram um vídeo cantando “I Will Survive” em protesto contra Donald Trump.

Atriz Meryl Streep faz discurso em apoio a Clinton em convenção do Partido Democrata.

A imprensa burguesa e golpista não perdeu a chance, de mais uma vez, vangloriar Clinton e atacar Trump ao noticiar a repercussão do discurso da atriz. O fato é que essa imprensa que fez campanha aberta para Hillary criou uma imagem da candidata, para os mais incautos, de que fosse de esquerda e progressista em relação ao infame Donald Trump. Hillary foi apresentado como grande defensora das mulheres, dos negros, dos LGBT, trabalhadores etc. Mas sua política mostra que ela é de fato a candidata dos bancos, dos bilionários de Wall Street.

Hillary é conhecida como a candidata da guerra, por apoiar abertamente a intervenção militar no Oriente Médio e tinha como apoiadores e financiadores de campanha ninguém menos que grandes nomes do mercado financeiro dos EUA como Warren Buffet e Michael Bloomberg.

Não é à toa que em seu discurso Meryl ressaltou a importância da imprensa diante do novo presidente, “Precisamos que a imprensa com princípios exija responsabilidade do poder, que o chame às falas por cada atrocidade que cometer.”. Menos se a candidata favorita da estrela de cinema fosse a nova comandante dos EUA.

Vale lembrar também que Meryl Streep, à época que interpretou Margareth Thatcher nos cinemas, elogiou calorosamente a “Dama de Ferro” que implantou na Inglaterra o neoliberalismo na década de 1980 atacando frontalmente a classe operária britânica e dando munição para a direita em outros países como no Chile e no Brasil nas décadas seguintes. Meryl Streep elogiou a política neoliberal de Thatcher, “Suas duras medidas fiscais tiveram um efeito sobre os pobres, e suas abordagem liberal à regulação financeira levou a uma grande riqueza para os outros. Há um argumento de que sua inabalável, e quase emocional lealdade à libra esterlina ajudou o Reino Unido durante as tempestades de incerteza monetária europeia.”. Hillary Clinton, a candidata da estrela de cinema, também é uma neoliberal reacionária do Partido Democrata. Tanto que foi criticada por uma ala do próprio partido.

Em parte do discurso a atriz norte-americana falou dos estrangeiros que compõem Hollywood e que Trump pretende atacar com propostas como o muro na fronteira entre México e os Estados Unidos. Um detalhe é que Hillary, com sua política de guerra vai atacar os estrangeiros direto em seus países como nas guerras no Afeganistão, Iraque, Irã etc.

Streep e Clinton: amigas de longa data tiram foto durante a campanha.

Ainda em seu discurso, Meryl Streep atacou Trump por ter, supostamente, zombado de um repórter deficiente físico, caso negado por Trump. A atriz disse que o ato feito por ele era condenável, pois, “Desrespeito atrai desrespeito. A violência incita a mais violência. Quando os poderosos usam sua posição para abusar de outros, todos perdemos…”. Em se tratando de violência e abuso de poder o discurso da atriz soa demagógico e muito hipócrita, pois a candidata democrata pela qual ela fez campanha defendeu abertamente a continuidade da guerra no Oriente Médio. Quer mais violência e abuso de poder que isso?

Este acontecimento é bastante válido para, mais uma vez, provar que a política está em todo lugar. A despeito da direita que faz campanha de que não existe política fora das câmaras de deputados, do congresso, das eleições. Cinema também é política e em se tratando de Hollywood é política profissional com larga experiência. Esperem mais porque o Oscar ainda nem chegou.

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