Por que o movimento negro se preocupa mais com a “Globeleza” do que com os 100 mortos do sistema prisional?

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Juliano Lopes

Bastou a Rede Globo de televisão colocar a globeleza com um biquíni e trajando outras roupas de demais festas nacionais para algumas pessoas ligadas ao movimento negro saírem em defesa da medida “progressista” da rede de TV golpista; outras, mais radicais, dissertam textos enormes para criticar a globeleza, com ou sem roupa.

O intrigante aqui é que a polêmica em torno da globeleza superou a quantidade de análises em torno de, por exemplo, os quase 100 decapitados nas cadeias brasileiras neste início de ano.

Mas a questão é simples de se entender. Enquanto um bom pedaço do movimento negro está preocupado com o aspecto cultural, o aspecto subjetivo do racismo, outro setor está completamente paralisado diante dos acontecimentos.

Para quem acompanha o movimento negro pequeno burguês, não é estranho que a globeleza renda mais “análises” que as mais de 100 mortes registradas no sistema prisional brasileiro neste começo de ano. Se trata de um problema de classe: a pequena burguesia está preocupada com a forma que ela pode ser vista, e não pode ser em forma de uma mulher negra semi nua sambando, às vésperas do Carnaval.

Se morrem cem pessoas (majoritariamente negras) degoladas, esquartejadas, carbonizadas, o fato de serem negras, pobres e supostamente criminosas, como a própria Globo diz, esse fato não comove ninguém da classe média, da pequena burguesia. Comove menos ainda a esquerda pequeno burguesa, que só derrama lágrimas e só protesta quando a Globo manda.

Agora é a globeleza, que precisa vestir roupa para que a “leitura” que é feita da mulher negra não seja como um “objeto” de satisfação sexual, não seja uma “exposição”. Então, chegou-se ao ponto de “lutar” para que a Globo vista as pessoas durante o Carnaval, especialmente a globeleza. A esquerda, depois de carcereira, virou seminarista.

Para resumir o problema: 100 pessoas degoladas nas cadeias públicas nacionais, em alguns dias, ninguém chora, ninguém liga, ninguém dá a mínima. Agora, a globo colocar uma negra para sambar com mais roupas seria resultado da luta contra o racismo, o que é um raciocínio absurdo. Como se a Globo estivesse preocupada com a situação do negro.  

Primeiro que não cabe ao movimento negro organizar a programação da Rede Globo. É meio ridículo pensar isso e gastar energia com isso. Até porque os 100 decapitados do sistema prisional, só nos primeiros dias de 2017, tem a coautoria da imprensa burguesa, que, faz décadas, defende justamente o que aconteceu, com a redução da maioridade penal, a privatização do sistema, o aumento da repressão como um todo.

Parece misterioso, mas não é. Esse setor do movimento negro já defendeu o Fernando Holiday, o vereador negro-por-acidente, pois foi contratado para defender a política da Ku Klux Klan brasileira.

Agora é hora de defender a Globo, com a negra sambista vestida com a “diversidade cultural”; ou criticar a Globo por não ter uma negra, “trans”, feminista, de luta, combativa, economista, advogada e acadêmica, abrindo o carnaval de 2017…

O que gera mais revolta é ver o posicionamento desse setor classe média do movimento negro prevalecendo sobre os demais. Quando, na verdade, a luta deveria ser para organizar os negros para invadir, libertar os presos e acabar com esse sistema de repressão da época do regime colonial.

Era preciso acabar com as delegacias, rasgar e tocar fogo em todos os processos penais, soltar os provisórios, libertar os que a pena já “venceu”. Dar alguma condição humana para a massa carcerária.

Mas não, para o movimento negro da imprensa capitalista, o que vale é o que a Globo faz ou deixa de fazer com os negros…. para a classe média, bem acostumada à universidade, bem paga, bem contratada, se cem negros caírem ao seu lado, decapitados, azar, eram criminosos, mereceram, assim diz a Globo.

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