Eleições: um terreno perigoso

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A entrevista de Lula para um TV turca na semana que passou trouxe à tona novamente a questão das eleições diretas como proposta para se opor ao golpe de Estado. A declaração de Lula em defesa de tal proposta se junta à notícia – não se sabe qual é a porcentagem de realidade nisso – divulgada pela imprensa burguesa de que o PT anunciaria a candidatura do ex-presidente ainda no primeiro semestre de 2017.

Não dá para saber até que ponto Lula e o PT estão envolvidos na política de “eleições diretas já” há muito levantada por setores do movimento contra o golpe. O fato é que a notícia chama a atenção para uma coisa importante: Lula e o PT aposta nas urnas para derrotar o golpe.

Do ponto de vista do ex-presidente defender as eleições e se lançar como candidato serve como uma espécie de defesa contra a perseguição cada vez mais implacável por parte dos golpistas. A partir do momento em que Lula é anunciado abertamente como candidato, as perseguições contra ele, que segundo pesquisas encomendadas pela própria imprensa golpista lidera em todos os cenários para a disputa presidencial, se tornam mais claramente processos políticos. Serve como mais uma tática de defesa, ainda que não seja suficiente para frear o ímpeto da direita golpista em destruir Lula e o PT.

O maior problema, no entanto, continua sendo a proposta de eleições em si e o abandono da perspectiva de se lutar nas ruas contra o golpe. Esse jornal e o Partido da Causa Operária vêm há algum tempo chamando a atenção para o perigo dessa política.

Esse perigo se encontra justamente nas variantes possíveis do desenvolvimento do golpe. O total desnorteamento da esquerda nesse momento impede justamente de colocar essas possibilidades sobre a mesa antes de formular uma política correta para a situação.

Em primeiro lugar é preciso considerar que a antecipação das eleições não está entre as políticas preferidas da direita nesse momento. O Congresso dominado pela direita não parece disposto a uma política como essa. Mas tiremos esse primeiro e importante problema de lado e consideremos a possibilidade de serem chamadas eleições.

Se houver eleições, Lula poderá ser candidato? Se for candidato, a burguesia deixará Lula concorrer? Se concorrer, as eleições serão democráticas? Se for eleito, Lula tomará posse?

Essas variações estão todas relacionadas as fato de que com o golpe o controle das instituições se encontram totalmente nas mãos da direita golpista. Apostar na eleição como oposição ao golpe é um enorme risco já que coloca a luta no terreno dominado pelo inimigo. As eleições municipais já mostraram isso.

A burguesia imperialista, no domínio completo das instituições, utiliza esse domínio para estabelecer uma política por fora dessas mesmas instituições. A ditadura que o Judiciário tenta impor, por exemplo, é um regime de exceção contra os direitos do povo sob a cobertura institucional. O uso do Judiciário é apenas uma dissimulação para a direita cometer todo o tipo de ilegalidade.

É isso o que está em jogo. A esquerda só conseguirá derrotar a direita, inclusive do ponto de vista eleitoral, se agir também por fora das instituições. Ou seja, sem uma mobilização de massas, nas ruas, o terreno está livre para a direita aumentar seus abusos contra o povo.

Abandonar a luta real contra o golpe por eleições é um erro que pode ser fatal inclusive do ponto de vista eleitoral. A desmoralização do movimento de massas diante de uma orientação política equivocada pode ter efeitos negativos por ano.

É uma ilusão achar que a simples popularidade de Lula é o suficiente para ganhar a eleição. Muitos fatores estão em jogo e nesse momento quem está na ofensiva política é a direita golpista. A situação pode levar a um episódio parecido com as eleições de 1989, quando Lula e o PT, impulsionados pelo movimento de massas dos anos anteriores jogaram todas as fichas na eleição e depois de muita manipulação da direita saíram derrotados, mesmo com toda essa popularidade. O resultado foi um ataque brutal de Collor contra os trabalhadores e o início de um era de neoliberalismo que deixou a classe operária na defensiva.

É preciso ter claro que a luta contra o golpe, que significa reverter o impeachment de Dilma Rousseff, deve estar em primeiro lugar. Junto com a luta contra o golpe, é preciso colocar como eixo a denúncia contra a perseguição a Lula e todas as medidas antidemocráticas que a direita, através do Judiciário e da imprensa golpista, estão tentando impor contra o povo. Sem essa perspectiva política e a mobilização de amplos setores dos trabalhadores, é impossível até mesmo se falar em eleição.

 

 

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