As “massas na Rua”

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Massas na rua! Assim gritou toda a esquerda mundial enquanto ocorria o Euromaidan na Ucrânia, o golpe ucraniano. “14 milhões na praça Tahrir”, disse a rede de televisão britânica, BBC, durante o golpe militar egípcio. “É o maior protesto político no Brasil desde as Diretas-Já; ministros vão à TV, prometem medidas anticorrupção e são alvo de novo panelaço; para presidente, situação é pior do que em junho de 2013”, citação do Estado de S. Paulo, cobrindo os atos pró-golpe de março de 2015.

Com os múltiplos casos de golpes de Estado e avanços reacionários precedidos e apoiados em mobilizações de caráter direitista ou fascista, se mostra necessário desfazer a confusão de um problema simples: setores do movimento popular e operário se sentem pressionados por essas “mobilizações”, outros, já dotados de malícia, querem dizer que são mobilizações do povo, por terem as famosas “massas na rua”, muitos setores capitulam diante da direita por conta dessa pressão, é necessário desfazer a confusão, para que o movimento possa progredir.

A Burguesia também coloca massas na rua

Todas essas mobilizações levaram setores reacionários ao poder. No Egito entregaram novamente o poder ao Exército. Na Ucrânia um governo misto com a extrema-direita fascista, no Brasil um governo da direita do PMDB com o PSDB-DEM. Em todos os casos as mobilizações foram seguidas de cassação de direitos, das garantias constitucionais e democráticas. Durante todos esses processos, setores de esquerda falaram que eram mobilizações populares, que era o povo descontente com a corrupção e acusações morais do gênero.

Se a esquerda pequeno-burguesa estivesse correta nessa análise teríamos um verdadeiro caso de histeria e loucura coletiva internacional! Milhões teriam ido às ruas, protestado, derrubado uma dezena de governos, um verdadeiro levante revolucionário global que levou em todos os casos a uma mudança no regime, mudança radical contra os trabalhadores, a luta revolucionária teria levado a brutais ditaduras contra o povo, o suposto movimento ofensivo das massas as teria levado à posição mais defensiva possível?

Claramente não poderia ser assim. É necessário lembrar que a classe dominante, principalmente o imperialismo, tem o poder de colocar grandes quantidades de pessoas na rua, mas isso não as torna “mobilizações populares”. Todas as manifestações citadas foram convocadas pelos grandes órgãos de imprensa. No Egito até a BBC é prova. Aqui o conjunto do monopólio de imprensa mobilizou para colocar setores da sociedade na rua, para cumprir seus próprios objetivos, para usar a mobilização para pressionar os governos e diminuir o poder de reação dos trabalhadores, por isso as mobilizações que cumpriram seu objetivo levam a governos de direita.

Coxinha, polícia e fascista não são o povo

“Alguns setores colocaram que as pessoas nesses atos eram a classe trabalhadora, os explorados revoltados com a corrupção. Na etapa anterior, esses setores conseguiram desviar o justo sentimento da luta contra a corrupção, para a luta contra Dilma, resultando no Impeachment.” Movimento de Esquerda Socialista -Tendência do PSOL

Em primeiro lugar é necessário dizer que a classe trabalhadora não esteve presente de forma significativa em nenhum desses golpes. No Brasil, os atos eram compostos pela pequena-burguesia de direita, pela extrema-direita e inicialmente por setores confusos. Nenhuma organização popular de peso, como a CUT, o MST ou a CMP teve participação neles, muito pelo contrário, esses setores são os principais setores na resistência à direita. A classe operária também não decidiu ir aos atos a revelia dessas direções. Pelo contrário, as pessoas presentes ao ato são abertamente hostis a todo o tipo de organização popular.

A composição dos atos deixa isso bem claro, os fascistas atacando tudo aquilo que aparecia de vermelho, uma manifestação sem reivindicações populares como moradia, salário, direitos, a maior parte das reivindicações são para tirar direitos, e em defesa da luta contra a corrupção, uma luta tradicionalmente de direita. Para aqueles que não se sentem satisfeitos com o argumento político, nesse caso, pode-se qualificar o ato usando números. Uma pesquisa feita num ato pró-golpe de março de 2016 na Avenida Paulista mostrou que 77% dos pesquisados tinham ensino superior (28% no mundo real), mais de 50% disseram receber entre 5 e 20 salários mínimos (23%), e ainda 12% se dizem empresários, claramente nada próximo ao proletariado.

Como desfazer a confusão e como combater a mobilização da direita?

A confusão sobre as manifestações de direita tem que ser desfeita na ação prática. A direita e o fascismo tem que ser denunciados como tal. Neste diário já foi dito mais de uma vez: não é o povo, é a direita, é o fascismo. Essas mobilizações nem podem ser tratadas como opiniões destoantes dentro do movimento de massas, elas são contra a existência do próprio movimento operário e de suas lideranças. Nos atos coxinhas ameaçaram a Central Única dos Trabalhadores, os partidos de esquerda, PT, PCO, PCdoB, entre outros, pedindo a prisão de seus líderes, atacando duramente os sindicatos, são verdadeiros inimigos povo. Os movimentos populares não têm que se deixar pressionar pelas massas reacionárias, um manifestante da direita golpista e um operário na luta contra o golpe não têm o mesmo peso.  A mobilização da classe operária carrega consigo uma força social poderosa, que não existe nos atos golpistas, a força desses atos vem dos grandes capitalistas. Podiam haver “massas” nessas praças, não nos números que eles declararam, mas nelas não eram o povo, muito menos a classe operária. É o dever das organizações operárias colocar em movimento os trabalhadores e varrer das ruas todas “massas” convocadas pelos golpistas e impor um freio à ofensiva golpista.

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