A propaganda mentirosa como ferramenta de intervenção imperialista

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Eduardo Vasco

O Exército sírio, com ajuda da Rússia, executou uma operação de libertação da cidade de Aleppo das mãos de diversos grupos terroristas. Os últimos “rebeldes” depõem as armas em Aleppo oriental e agora apenas 15% do território do país ainda está sob o controle desses grupos [1].

Trata-se de uma importante vitória das forças do governo sírio, que havia perdido o controle da cidade há quatro anos.

A ação foi recebida com preocupação pelas potências ocidentais, especialmente os EUA, uma vez que seus “rebeldes moderados” que controlavam Aleppo estão sendo esmagados.

O imperialismo tratou logo de acusar as forças oficiais sírias de estarem cometendo gravíssimos crimes contra a população civil de Aleppo, histeria que se tornou recorrente em todas as áreas recuperadas pela Síria e pela Rússia, principalmente desde que Moscou resolveu se envolver diretamente no conflito para livrar o país árabe do terrorismo “made in USA”.

Além de “noticiar” bombardeios e assassinatos em massa de civis, os meios de comunicação agora repercutem amplamente supostas vítimas que estariam sendo estupradas por soldados naquela cidade e que, para não passarem por isso, preferem se suicidar.

Curiosamente, uma carta de uma suposta residente de Aleppo dizendo que se suicidaria para evitar o estupro dos “animais” do Exército sírio, difundida pela imprensa britânica, não é assinada. Além disso, o corpo da mulher não foi encontrado. E ainda: no noticiário sobre o caso, uma das fontes que afirma que dezenas de mulheres estão se suicidando para não caírem nas mãos dos soldados é justamente um terrorista que atua naquela cidade, um “rebelde” opositor do governo [2].

Os soldados estariam passando “de porta em porta” a procura de famílias ligadas aos “rebeldes” para executar civis, segundo os veículos de comunicação que reproduzem o discurso fabricado por Washington.

Mensagens nas redes sociais, difundidas simultaneamente desde 12 de dezembro, levantaram suspeita de que pudesse se tratar de uma campanha de propaganda coordenada. A RT revela que os “civis inocentes” que escrevem mensagens denunciando atrocidades do Exército sírio e que podem morrer a qualquer momento são, na realidade, propagandistas dos “rebeldes”, ligados diretamente a eles [3].

Esse tipo de boato é uma velha estratégia de propaganda utilizada há pelo menos um século para demonizar governos “inimigos” dos Estados Unidos. São mentiras plantadas pelos órgãos de inteligência e divulgadas pelos veículos de propaganda midiática para preparar o terreno para possíveis intervenções militares e que continuam durante toda a operação, principalmente quando se está perdendo a guerra, como foi demonstrado pela importante vitória do Exército sírio em Aleppo.

Desde os famosos “comunistas comedores de criancinhas” até os “ditadores genocidas”, essa estratégia é utilizada em toda a parte.

Para intervirem militarmente no Iraque no início dos anos 90, mentira semelhante foi difundida contra o exército de Saddam Hussein, que havia invadido o Kuwait. Uma agência de publicidade inventou que soldados iraquianos haviam entrado em um hospital daquele país, removido 312 bebês das encubadoras e os deixado morrer no chão frio.

“Proclamada repetidamente pelo presidente Bush Sr., confirmada pelo Congresso, endossada pela imprensa de referência e até mesmo pela Anistia Internacional, esta notícia tão horripilante, mas mesmo assim circunstanciada para indicar com precisão o número de mortes, não poderia deixar de provocar uma onda avassaladora de indignação: Saddam Hussein era o novo Hitler, a guerra contra ele era não só necessária como também urgente e aqueles que se opusessem a ela ou fossem recalcitrantes deveriam ser considerados como cúmplices mais ou menos conscientes do novo Hitler! A notícia era obviamente uma invenção habilmente produzida e distribuída, mas foi para isso que a agência de publicidade merecera o seu dinheiro”, lembra Domenico Losurdo [4].

Para intervir em um país, a mídia constrói uma imagem desse país de acordo com o que seus chefes em Wall Street e no Pentágono querem que seja dito, “a fim de mobilizar histeria popular suficiente” para convencer as pessoas que as ações bélicas dos EUA são legítimas (CHOMSKY, 2005, p. 227) [5]. Ou seja, a mídia prepara o terreno para que a intervenção imperialista tenha a menor oposição possível.

Uma das maneiras de preparar esse terreno é criando estereótipos do lugar a ser atacado para gerar uma aversão e repúdio, tentando convencer de que o estranho é malvado e que comete atrocidades contra a própria população e contra vítimas inocentes. Isso causa um efeito no público.

Walter Lippmann (2010, p. 144) explana que “ao odiar violentamente certa coisa, nós de imediato a associamos como sendo a causa ou o efeito de muitas outras coisas que odiamos ou tememos violentamente” [6]. De modo que são utilizados variados instrumentos para iludir e enganar a opinião do público.

Nos Bálcãs, a mesma estratégia foi utilizada para fragmentar e destruir a região. Enquanto o presidente Slobodan Milosevic tentava evitar a desunião dos povos da Iugoslávia e manter o país soberano, as milícias separatistas croatas e bósnias eram tratadas pelo Ocidente como “mocinhas” em perigo.

Muito foi noticiado sobre as limpezas étnicas cometidas pelos servo-bósnios, mas o mesmo não foi feito com as mesmas operações perpetradas pelas forças croatas (PERES, 2005, p. 127) [7]. Os jornais publicaram fotos de vítimas muçulmanas e croatas, mas não sérvias. Os únicos sérvios que apareciam nas fotos estavam armados e com cara de maus e eram quase diários os pedidos de intervenção estrangeira para acabar com o “genocídio” na Bósnia e depois no Kosovo.

Além disso, a propaganda midiática a todo o momento colocava a culpa da guerra sobre Milosevic, apesar deste ter desempenhado um importante papel na busca pela paz e de ter cortado relações com os servo-bósnios quando eles começaram a cometer crimes e não quiseram mais saber de manter a união da Iugoslávia e a fraternidade entre os povos. Tanto é que a imprensa imperialista conseguiu levar o então presidente iugoslavo a julgamento em Haia, acusando-o de limpeza étnica na Bósnia. Ele morreu sob condições suspeitas em 2006 [8] e, dez anos depois, o Tribunal constatou que Milosevic não teve participação nesses crimes [9].

Robert Baer, ex-agente da CIA que trabalhou na Iugoslávia entre 1991 e 1994, revelou recentemente à mídia bósnia que a agência deu milhões de dólares para meios de comunicação propagandearem a destruição do país [10].

Antes de se empenharem na derrocada de Assad, os Estados Unidos e seus aliados armaram uma grande campanha de desinformação contra a Líbia. Muammar Gadafi foi acusado de massacrar seu povo, perseguir opositores e que seus soldados – assim como os soldados sírios hoje – eram incentivados a estuprar mulheres em áreas controladas pelo governo, inclusive com o uso intenso de viagra (!). Todas essas mentiras foram desmascaradas de uma vez por todas por um relatório divulgado pelo parlamento britânico em setembro deste ano [11].

Contudo, tanto Saddam Hussein (após a invasão dos EUA em 2001) como Milosevic e Gadafi (este último durante a intervenção da OTAN) foram mortos como resultado das intervenções militares dos EUA e companhia, deflagradas a partir do bombardeio diário de mentiras e manipulações.

A Síria é só mais uma vítima do esquema de propaganda operado desde Wall Street e do Pentágono. Mas não está sendo fácil desta vez, porque já se vão quase seis anos e o “ditador”, “assassino”, “genocida”, “criminoso” Assad não cai de jeito nenhum e parece estar caminhando para a vitória.

Notas

[1] “Que território sírio ainda está nas mãos dos rebeldes?”. In: Público. Disponível em: <https://www.publico.pt/2016/12/15/mundo/noticia/que-territorio-sirio-ainda-esta-nas-maos-dos-rebeldes-1754951>. Acesso em: 15 dez. 2016.

[2] “’Não verei alegria desses animais me estuprando’, diz síria em carta de suicídio”. In: IG – último segundo. Disponível em: <http://ultimosegundo.ig.com.br/mundo/2016-12-14/siria.html>. Acesso em: 15 dez. 2016.

[3] “¿Grito desesperado o propaganda coordinada?: Llegan los ‘últimos’ mensajes desde Alepo”. In: RT en español. Disponível em: <https://actualidad.rt.com/actualidad/226184-grito-ayuda-propaganda-ultimos-mensajes-alepo>. Acesso em: 15 dez. 2016.

[4] LOSURDO, Domenico. “A indústria da mentira, parte da máquina de guerra do imperialismo”. In: Resistir. Disponível em: <http://resistir.info/losurdo/industria_da_mentira_04set13.html>. Acesso em: 15 dez. 2016.

[5] MITCHELL, Peter R.; SCHOEFFEL, John (Org.). Para entender o poder: o melhor de Noam Chomsky. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2005.

[6] LIPPMANN, Walter. Opinião pública. 2. ed. Petrópolis: Vozes, 2010.

[7] PERES, Andréa Carolina Schvartz. “Enviado especial à…: uma análise antropológica da cobertura da imprensa brasileira das guerras na ex-Iugoslávia (anos 90)”. Dissertação (Mestrado em Antropologia Social), IFCH-Unicamp. Campinas, 2005.

[8] “Slobodan Milosevic: the killing of an innocent man”. In: Pravda. Disponível em: <http://www.pravdareport.com/world/europe/16-08-2016/135344-slobodan_milosevic-0/>. Acesso em: 15 dez. 2016.

[9] Em março de 2016, o Tribunal Penal Internacional para a Antiga Iugoslávia considerou que não encontrou provas suficientes para condenar Milosevic pela limpeza étnica na Bósnia, crime do qual foi acusado. Segundo o órgão (2016, p. 1303): “No que diz respeito à evidência apresentada neste caso em relação à Slobodan Milosevic e sua filiação ao JCE [Joint Criminal Enterprise], a Câmara recorda que ele compartilhou e endossou o objetivo político do Acusado [Radovan Karadzic, líder radical dos servo-bósnios] e a liderança serva-bósnia para preservar a Iugoslávia e prevenir a separação ou independência da BiH [Bósnia e Herzegovina] e cooperou estreitamente com o Acusado durante esse período [1990-início de 1992]. A Câmara também recorda que Milosevic providenciou assistência na forma de pessoal, provisões e armamentos para os servo-bósnios durante o conflito. Contudo, baseada na evidência anterior, a Câmara, no que diz respeito aos interesses divergentes que emergiram entre os servo-bósnios e as lideranças sérvias durante o conflito e em particular as repetidas críticas de Milosevic e sua desaprovação das políticas e decisões tomadas pelo Acusado e a liderança serva-bósnia, a Câmara não está satisfeita de que houve suficiente evidência apresentada neste caso para constatar que Slobodan Milosevic concordou com o plano comum.” (“Prosecutor v. Radovan Karadzic”. Public redacted version of the judgment issued on 24 March 2016. Volume I of IV. In: ICTY. Disponível em: <http://www.icty.org/x/cases/karadzic/tjug/en/160324_judgement.pdf>. Acesso em: 3 out. 2016. Importantes observações feitas sobre Milosevic também se encontram nas páginas 1035, 1241-1245, 1598-1599, 1896, 1903 e na nota de rodapé 16612 (p. 2022) do mesmo documento.

[10] “IPOVEST CIA AGENTA: Dati su nam milioni…” In: Web Tribune. Disponível em: <http://web-tribune.com/iza-kulisa/ispovest-cia-agenta-dati-su-nam-milioni-da-rasparcamo-sfrj-podmitili-opozicione-stranke-i-politicare-koji-su-raspaljivali-mrznju-medu-narodima-a-krajnji-cilj-je-bio-da-vas-napravimo-robovima>. Acesso em: 3 out. 2016.

[11] “Britânicos admitem que guerra contra a Líbia foi movida à mentiras”. In: Vermelho. Disponível em: <http://www.vermelho.org.br/noticia/286874-9>. Acesso em: 15 dez. 2016.

 

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