Por que a esquerda deve abandonar o “Fora Temer” e lutar por uma alternativa dos trabalhadores diante da crise?

Compartilhar:

Antônio Carlos Silva

Os jornais e revistas da imprensa golpista estampam capas, manchetes, editoriais, colunas etc. que mostram o governo ilegítimo de Michel Temer (PMDB) “cambaleando”,  “derretendo” etc. e não faltam denuncias e delações anunciando o suposto (e muito provável) recebimento por parte do presidente e de seu partido (assim como ocorre com todos os partidos burgueses desde o primeiro dia em que foram criados) de verbas de empreiteiros e de outros tubarões capitalistas.

Fica evidente que soam as trombetas que anunciam que “o fim está próximo” para o governo “comandado” pelo partido dos “judas”  que, depois de integrarem por anos a coligação com o PT e sendo salvo da sepultura por meio desta aliança (muitas das vezes, como no caso do Rio de Janeiro e Maranhão) imposta ao partido por métodos nada democráticos da direção partidária, se juntou ao bloco mais reacionário e pró-imperialista da burguesia (representados, principalmente, pelo PSDB e DEM) para derrubar a presidenta eleita por mais de 54,5 milhões de brasileiro e colocar em seu lugar um governo que não teve um único voto.

Nas próximas semanas, provavelmente, veremos os “militontos” e os “ coxinhas” se dirigirem às avenidas Atlântica, em Copacabana, Paulista, Goethe (Porto Alegre), Boa Viagem (Recife), Beira-Mar (Fortaleza), na Barra (Salvador) etc., convocados pela organização-mor do golpe, a Rede Globo, saírem às ruas com as camisetas da CBF, com faixas, cartazes e gritos de “Fora Temer”… porque essa é a vontade (ao menos por hora) dos verdadeiros donos do golpe que querem colocar no lugar do atual governo débil e fragilizado diante das massas exploradas e resistente – em alguma medida – à política de terra arrasada contra a economia e o povo brasileiro que o imperialismo quer impor ao País, por meio dos seus “office-boys” da ala mais reacionária e perigosa do golpismo, o bloco PSDB-DEM.

Comparados com esta política “neoliberal”, ditada pelos interesses dos mesmos monopólios  internacionais e seus Estados imperialistas que destruíram o Iraque e outros países do Oriente Médio, matando milhões para roubar o petróleo e subjugar os povos árabes, que mantém inúmeras guerras e a destruição de países inteiros africanos, que fazem com que haja hoje em todo mundo mais de 60 milhões de refugiados vagando pelo mundo como errantes (número superior ao período superior ao pós-guerra); responsáveis por levar à fome e à miséria não apenas bilhões de seres humanos dos países pobres, mas também promover um violento retrocesso nas condições de vida dos países desenvolvidos, os ataques dos 100 primeiros dias do governo Temer serão lembrados como um ensaio. Se eles são capazes de levar adiante uma guerra contra seus próprios cidadãos, gerando (entre outros) mais de 5 milhões de sem teto, mais de dois milhões de prisioneiros, dezenas de milhões de desempregados nos EUA, o que não serão capazes de fazer em terras brasileiras se triunfem em seus planos.

Diante desta evolução da situação política, a classe trabalhadora todos os explorados e suas organizações de luta são impelidos a tomarem uma posição. A esquerda se vê confrontada (ainda que não tenha plena consciência disso) com a necessidade de se posicionar diante da evolução direitista da situação, em meio a um período de crise e incertezas provocadas pela ofensiva golpistas da direita (um intenso processo de perseguição e repressão) e pela fragilidade de sua política de colaboração de classes e de ilusão de que seria (e que ainda é) possível estabelecer um regime estável e progressista de coalizão com setores da burguesia e seus partidos, o que a experiência histórica em nosso País, na América Latina e em todo mundo, ja demonstrou ser inviável.

No interior das organizações de massas, como a Frente Brasil Popular, que representa um fator altamente progressivo na situação do País, por ser (junto com a CUT que a integra) um dos principais pilares da luta contra o golpe desde meados de 2015, se processa a mesma confusão que domina a maior parte dos partidos da esquerda, organizações sindicais, populares e da juventude: de que os eixos políticos da luta dos explorados no próximo período devem ser – além da correta luta contra o golpe – a reivindicação de “fora Temer” e “eleições diretas”.

Esta posição coloca os explorados em uma “frente” com os setores mais reacionários da burguesia e dos golpistas que já “colocaram para trabalhar” a sua venal imprensa golpista e – muito provavelmente – se preparam para impulsionar novos “coxinhatos”  pelo “fora Temer”.

Setores pequeno burgueses da FBP e da esquerda em geral, procuram afastar as organizações dos trabalhadores e da juventude de uma necessária delimitação entre a direita e a esquerda, entre a política dos explorados e dos exploradores, apontando o caminho da unidade com setores golpistas, partidos patronais etc. como forma de superação da crise atual. Propõem mais (muito mais) do mesmo “remédio” que levou os trabalhadores à derrota diante, inclusive, daqueles – como o PMDB de Temer, Sarney, Renam, Cunha etc. – que esta mesma esquerda procurava defender como aliados.

De certa forma, essa política expressa a tendência já mais desenvolvida no interior da esquerda de fora da FBP (como o PSTU e o PSOL e seus satélites) que propõem unificar a luta em defesa das reivindicações dos trabalhadores (como a derrota das PEC e reformas propostas pelo governo golpista) com a “luta contra a corrupção”, ou seja, com o apoio à própria operação golpista da Lava Jato e à toda política de cassação dos direitos democráticos da maioria do povo brasileiro (“10 propostas do MP” etc.).

A defesa de novas eleições, em meio a um golpe de Estado, quando o pleito de outubro passado evidenciou que não há a menor possibilidade de avanço da esquerda (pelo contrário) no terreno de eleições golpistas, evidencia também o nível de confusão dessa esquerda, que abriga em seu interior setores que se aliaram aos golpistas (inclusive do PSDB e do DEM nas eleições) e que querem apontar como alternativa uma frente eleitoral com políticos patronais, ligados à FIESP e outras organizações golpistas, como é o caso de Ciro Gomes (PDT).

A tarefa do momento é superar esta confusão política nas fileiras da esquerda e das organizações de luta dos explorados para armar uma ampla parcela do ativismo para a próxima etapa em que está colocada uma tendência à que setores dos explorados entre em luta contra a ofensiva da direita. Mais do que nunca precisam ter uma orientação independente, diferente das diversas alas da burguesia que se unificaram em torno do golpe e que tem como “saída” o ataque “as condições de vida dos trabalhadores e aos seus direitos democráticos.

Esta superação só pode se dar com base na própria experiência de luta dos explorados, como se viu na fase anterior da luta contra o golpe, na qual a maioria da esquerda foi impelida à mobilização por força dos acontecimentos que os levaram a “ver” e a lutar contra o golpe cujas engrenagens foram preparadas ao longo dos últimos anos, sem que essa esquerda conseguisse perceber.

Para impulsionar esta luta, junto aos trabalhadores e à juventude é preciso impulsionar a luta pela criação dos comitês de luta contra o golpe, agrupando os ativistas de toda a esquerda, dos locais de trabalho, estudo e moradia, pela derrota da ofensiva golpista, o que significaria – neste momento- a anulação do impeachment – e o retorno do governo eleito pela maioria do povo, a derrota da ofensiva que visa levar o ex-presidente Lula à prisão , reprimir e “desarmar” toda a esquerda para permitir a imposição da política de terra arrasada do imperialismo.

artigo Anterior

“A ditadura da toga”, por Latuff

Próximo artigo

MEC golpista congela vagas em Universidades Federais

Leia mais

Deixe uma resposta