Leandro Narloch e o cinismo da direita

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Afonso Teixeira

Uma série de jornalistas e articulistas venais foram chamados por seus patrões para escrever algo em desrespeito à morte de Fidel Castro.

E o pior desses textos, quer do ponto de vista argumentativo, quer da lógica estrutural, é o de Leandro Narloch, um pseudo-historiador, autor de uns garranchos intitulados Guias politicamente incorreto de alguma coisa. O objetivo desses Guias seria, de acordo com o próprio autor, dissolver a lavagem cerebral que professores de esquerda fizeram nos alunos das escolas brasileiras.

Ocorre que esses livros ensinam precisamente a mesma coisa que nossos avós e bisavós aprendiam nas escolas na época do Estado Novo. Não são politicamente incorretos, mas politicamente corretos, ou seja, reacionários.

Contratado pela Folha de S.Paulo para descer a lenha em Fidel Castro (como se isso servisse para alguma coisa), Narloch compara o líder cubano a um barão do café, dono de escravos.

Por isso só, já se percebe o quanto esse historiador entende de história. Pois os barões do café estiveram entre aqueles que ajudaram a pôr fim à escravidão, uma vez que o trabalho da colheita do café era mais propício à mão de obra de trabalhadores livres do que de escravos. Mas, vamos deixar essa passar, afinal, os barões do café tiveram, durante um certo tempo, escravos. O ponto é que o exemplo não é bom.

Enfim, o argumento dele é que se um senhor de escravos desse saúde e educação a seus escravos, esses escravos não deixariam de ser escravos. Assim começa o texto e já sabemos onde isso vai terminar. Mas a maior pérola vem em seguida. Vou reproduzir aqui as próprias palavras de Narloch. É um dislate: “Como um senhor escravista, Fidel reprimiu revoltas e perseguiu dissidentes. Há 9.200 mil (sic) casos documentados de mortos por sua ditadura. O número equivale a mais de 20 vezes o número de desaparecidos políticos da ditadura brasileira. Pesquisadores estimam que os casos documentados podem ser apenas 10% do total.”

Em primeiro lugar, vamos fingir que acreditamos nesses dados. É aí que está a piada. Fidel teria reprimido revoltas e dissidentes, “como um senhor escravistas”. Por que como um senhor de escravos? É preciso ser um senhor de escravos para fazer isso? Seria o mesmo que dizer: “como um senhor de escravos, ele fumava charutos”. A comparação só valeria se Fidel, depois de capturar esses escravos, os colocasse em pelourinhos.

E, depois: “9.200 mil”? Que número é esse? Tomemos um valor numérico mais plausível: 9.200. Se 9.200 escravos foram mortos (e esse número deve ser de apenas 10% do total, segundo “especialistas”), imagine-se o tamanho da fazenda e o tamanho do prejuízo que esse senhor de escravos teve. Nenhum senhor de escravos se livraria de tanta mão-de-obra. Escravos são mercadoria e valem dinheiro.

Agora, imaginemos que esses especialistas (que Narloch não diz quem são) tenham razão e que o número de mortos esteja por volta de 90 mil. Isso certamente teria provocado outra revolução em Cuba. Cuba tem hoje aproximadamente 11 milhões de habitante. Fidel teria matado aproximadamente um por cento da população do país.

Narloch afirma também que mesmo o número oficial de 9 mil mortes é, por si só, 20 vezes maior do que o número de desaparecidos durante a ditadura brasileira. Viva a ditadura brasileira! Por que não mencionou ele a Argentina e o Chile, países que, até onde eu sei, nunca foram comunistas, e cujas ditaduras fariam inveja a qualquer senhor de escravos?

Por fim, Narloch diz que Fidel convenceu os intelectuais latino-americanos de que era um líder revolucionário quando não passava de um senhor de escravos. Dessa forma, todos os intelectuais latino-americanos foram enganados por Fidel, menos, é claro, o próprio Narloch (se é que se pode chamar um sujeito desses de intelectual).

Comparar Fidel a um senhor de escravos não tem cabimento. Muito menos a um barão do café. Tão certo quanto se pode dizer que Fidel nunca plantou um pé de café, podemos dizer que Narloch é ruim das ideias: escreve mal, compara mal, argumenta mal.

Depois de esmagado, do texto de Narloch restam apenas as ofensas. Não passa de uma provocaçãozinha à esquerda. Se Fidel era “apenas” um senhor de escravos (coisa que o texto não sustenta), então Cuba não passa de uma Senzala. Eis o componente psicológico do artigo. Como todo o mundo sabe, a população de Cuba é quase totalmente negra. Daí a ideia de comparar Cuba a uma senzala. Uma ideia um tanto racista, não acham?

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