O gabinete “apolítico” de Dória

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Nas eleições de 2016, a direita começou a apostar em um discurso que foi muito repetido pela imprensa golpista: o discurso “não sou político, sou empresário”. Sem dúvida alguma, o maior representante deste tipo de discurso foi o tucano João Dória, eleito prefeito de São Paulo.

O discurso “apolítico” não é nenhuma “modernização” da política, não é nenhum avanço “ético”. É, simplesmente, uma tática da direita golpista para desincentivar a população a participar do processo político – pois todos os políticos seriam “corruptos” e “interesseiros” – e incentivar um “voto de confiança” no “novo”, naquilo que “nunca foi experimentado”, naquilo que “não tem nenhuma relação com a classe política”. Obviamente, como todo discurso direitista, o “não sou político, sou empresário” é apenas um discurso. Sua prática é inversa.

Em primeiro lugar, João Dória não é uma pessoa “sem relação alguma com a classe política”. Seu pai, por exemplo, foi deputado federal pelo Estado da Bahia. Além disso, muito antes de se lançar candidato a prefeito de São Paulo – que foi sua primeira disputa eleitoral -, as relações de Dória com políticos eram amplamente conhecidas. João Dória já ocupou cargos como a Secretaria de Turismo do Estado de São Paulo, que é uma nomeação feita diretamente pelo prefeito. E isso não se deu simplesmente porque Dória é “competente”. Como já disse o blogueiro Paulo Henrique Amorim, Dória “apresenta ricos a políticos e políticos a ricos”.

A campanha de João Dória à prefeitura de São Paulo não foi impulsionada por ele mesmo. Não foi sua “fama de bom gestor”, nem seus investimentos. A campanha de Dória só saiu vitoriosa por causa de todo o jogo político feito por Geraldo Alckmin e o PSDB, o que só mostra o como a candidatura de Dória não seria possível sem as práticas políticas comuns da direita. Como não poderia deixar de ser, ao ser eleito, Dória retribuiu os “favores” de Alckmin e defendeu a candidatura deste à presidência da República.

Mais uma prova de que a gestão de Dória será, na verdade, uma gestão do PSDB – principalmente dos tucanos relacionados a Alckmin – foi dada ontem, quando Dória anunciou todos os 22 secretários que irão compor sua gestão. Desses 22, oito são diretamente ligados a Alckmin, nove já tiveram algum cargo público e apenas cinco são “novatos” na política. Assim, fica claro novamente a demagogia do “apolítico”, que é um discurso típico da direita.

Apesar de retratar a situação do secretariado de Dória, o jornal O Estado de S. Paulo cumpriu bem seu papel de imprensa golpista: ao invés de criticar o “estelionato eleitoral” de Dória – termo que foi muito utilizado para criticar o governo de Dilma Rousseff – o jornal tentou defender Dória, apresentando números e dando voz a “autoridades” para alegar que um gabinete mais apolítico seria difícil.

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