A esquerda neoliberal

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“As ideias da classe dominante são, em todas as épocas, as ideias dominantes”, disseram Marx e Engels. Não surpreende que aqueles que vão contra essas ideias sejam tão duramente combatidos. E por esses dois motivos também não surpreende que a esquerda pequeno-burguesa, desvinculada da classe operária, seja irresistivelmente levada pelas ideias da classe dominante.
É daí que nasce o fenômeno da esquerda neoliberal. Mas do que estamos falando afinal?
Ávida por saquear o mundo e garantir seus lucros, a burguesia imperialista está investindo no mundo todo, derrubando governantes que opõem qualquer mínima resistência ao seu completo domínio. É a origem do golpe no Brasil.
Essa operação política vem acompanhada também de uma operação ideológica. E é aí que nossos pequeno-burgueses de esquerda se confundem completamente e, pasmem, inclusive adotam essa ideologia!
Vejamos dois exemplos recentes.
O primeiro é o de um pequeno grupo inacreditavelmente chamado Movimento Negação da Negação. Em um artigo em sua página, o MNN, como é chamado, diz entre outros, que “É preciso saber lutar contra os ataques, todavia, sem lutar pela ampliação do Estado capitalista. É preciso saber ser negativo — dizer não à PEC —, sem ser positivo — sem dizer sim ao aumento do Estado, à suposta capacidade de resolver as contradições capitalistas pela via da gestão estatal”. (Programa de luta contra a PEC, 31/10/2016)
Ou seja, é uma esquerda “socialista” e “revolucionária” que defende a propriedade privada e o Estado mínimo! Precisa de mais explicações?
Sim, é sempre bom explicar.
Essa é, sem tirar nem pôr, a ideologia neoliberal que rege tais ataques, que unifica a direita fascistóide, pró-imperialista e anticomunista.
Segundo esses últimos, é preciso diminuir o tamanho do Estado, o que significa cortar o dinheiro da saúde, da educação, da infraestrutura, do saneamento básico, vender as empresas estatais, congelar salários etc para que o Estado possa sustentar o capitalismo em crise, principalmente, seu setor fundamental, o sistema financeiro. É justamente a essência da PEC!
Ou seja, querem combater a PEC defendendo os mesmos princípios que levaram a ela.
O segundo exemplo é menos descarado, mas nem por isso menos direitista.
Trata-se do grupo MAIS, dissidência do PSTU. Esse grupo propõe “três medidas alternativas à PEC” (6/11/2016). A grande questão é: por que deveríamos propor alguma medida para substituir a PEC? A classe operária, que o MAIS diz representar, deve apresentar uma proposta para equilibrar as contas do Estado dos capitalistas sobre o qual não tem o menor controle? Não mais do que deve propor soluções para empresas privadas que se dizem falidas.
Diferente do MNN, o MAIS quer ser “positivo”, mas partindo das mesmas premissas da direita e no sentido de resolver o problema que eles colocaram, que não deixa de ser o mesmo que defende o MNN: o enxugamento do Estado.
Mas como bons morenistas, procuram dar uma aparência de esquerda à política da direita.
As propostas são (literalmente): “taxar as grandes fortunas, cobrar a dívida dos grandes devedores da União, suspender o pagamento e fazer uma auditoria da dívida”. Sim, suspender, e não deixar de pagar. Suspender para, com a auditoria, termos o valor “justo” a ser pago.
Com essas propostas pretendem “equilibrar as contas da União”. Mas para a direita, isso significa uma única coisa: parar de dar dinheiro à população para guardar dinheiro para pagar os banqueiros!
E o MAIS, por que quer equilibrar as contas da União? Do ponto de vista econômico, eles provavelmente sequer o sabem. Talvez porque pareça certo ter as contas equilibradas, como todo bom pequeno-burguês deseja. Mas na prática o objetivo é o mesmo. Querem aumentar a arrecadação, mas não para dar mais dinheiro a população, mas para garantir que os banqueiros também recebam a sua parte, pois é isso que significa “equilibrar as contas”, não gastar tanto que não se possa pagar suas dívidas. Os trabalhadores não devem se deter diante da contabilidade capitalista, se o Estado não pode pagar os seus funcionários, que a burguesia entregue o poder à classe trabalhadora!
Do ponto de vista político, a coisa é simples: precisam dar uma resposta à pequena-burguesia direitista que repete como papagaio o que a imprensa capitalista diz. O MAIS quer ser a voz de esquerda da política neoliberal.
A política da classe operária, dos socialistas e revolucionários não é a de equilibrar as contas da união, nem de diminuir o Estado. Parece óbvio, mas também não defendemos a propriedade privada e sim a propriedade coletiva dos meios de produção. Ainda sob o capitalismo, exigimos que o Estado forneça à população educação gratuita em todos os níveis, saúde gratuita, todo tipo de programas de assistência que forem necessários; que as empresas e inclusive o sistema financeiro sejam estatizados. Para isso é preciso parar de pagar a dívida e não economizar às custas dos trabalhadores. O Estado não deve ser mínimo; deve, ao contrário, atender quais forem as necessidades da população e não dar nenhum centavo arrecadado aos banqueiros e grandes capitalistas. A única maneira pela qual isso pode ser feito é colocando o estado sob controle da maioria da população, pela classe operária, na luta pelo socialismo.

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