MBL: o “liberal-fascismo”

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O crescimento da direita no Brasil foi preparado por uma intensa campanha em favor do livre-mercado. Os novos direitistas, ou melhor a nova cara da velha direita, se diz liberal.

Infelizmente, a própria esquerda cai no conto do “liberalismo econômico”. Entra-se assim numa discussão infrutífera e, sobretudo, falsa. Falsa porque o livre mercado que dizem defender deixou de existir há mais de cem anos.

O imperialismo nasce com o século XX e se desenvolve com ele. Esse fenômeno é a negação do livre-mercado. Não se trata aqui de uma questão ideológica, mas econômica. Uma vez consolidado o imperialismo, ele acaba com a livre concorrência, assim como a vitória definitiva do capitalismo acabou com o feudalismo. Importante lembrar que esses fenômenos são dominantes, o que não quer dizer que as formas anteriores foram completamente eliminadas. Elas subsistem e convivem com a nova forma, mas estão sob seu completo domínio.

O imperialismo é o domínio dos monopólios, resultado da concentração da produção e da fusão do capital industrial e financeiro.

Sob o imperialismo, não há nem pode haver livre concorrência. O monopólio domina o mercado e o Estado, mecanismo fundamental para garantir sua existência parasitária. O “neoliberalismo” é, portanto, nada mais que um anti-liberalismo, que a defesa do capital monopolista.

A ideologia do “Estado mínimo” nesse contexto significa que todo o dinheiro do Estado deve ser retirado da população e dado aos monopólios. Ou, no caso dos países atrasados economicamente, como o Brasil, que o Estado deve parar de beneficiar certos setores, geralmente nacionais, para entregar essa fatia do mercado inteiramente ao capital estrangeiro.

É o que acontece no Brasil e é a explicação para a propaganda em torno da suposta ineficiência das empresas estatais, para que sejam privatizadas, ou da corrupção das empresas privadas nacionais, como é o caso atual das construtoras, para que seu mercado seja entregue às empresas estrangeiras, imperialistas.

Tão mal compreendido quanto o “liberalismo” é o fenômeno do fascismo. A concepção vulgar do fascismo o identifica com “autoritarismo”, o que deu ensejo a que alguns analistas burgueses maliciosamente procurassem identificar o fascismo com o comunismo, ignorando cinicamente as centenas de ditaduras que deram o tom do capitalismo no último século e que o próprio fascismo é um fenômeno do capitalismo.

O “autoritarismo” é apenas um aspecto do fascismo. É fato que os regimes fascistas são invariavelmente ditaduras, mas são ditaduras de um tipo específico.

O fascismo é, em primeiro lugar, um fenômeno capitalista, mais especificamente do capitalismo imperialista. Tanto nos países mais avançados quanto nos mais atrasados, o fascismo está a serviço de algum setor imperialista. Em segundo lugar, é um fenômeno que tem como objetivo primordial a destruição da vanguarda da classe operária, a aniquilação de suas organizações de classe, ou seja, sua eliminação enquanto classe. Por isso se impõe por meio da violência, meio de intimidar os trabalhadores, cujas direções tendem a não reagir adequadamente à ofensiva fascista, tal como acontece hoje. Enquanto a frente popular atrela a classe operária à burguesia por meio da política de colaboração de classes, o fascismo faz isso pela força, pela destruição de qualquer forma de independência da classe operária. Isso é o fascismo.

A essa altura o leitor deve estar se perguntando como o MBL entra na história.

O Movimento Brasil Livre (MBL), que despontou na campanha golpista é fascista por vocação. Anticomunista por princípio, financiado por grupos imperialistas e defensor desses grupos por meio da farsesca ideologia liberal, o MBL está passando agora à prática fascista.

Organizaram-se em grupos para desocupar à força as escolas ocupadas pelos estudantes secundaristas que lutam contra a destruição do ensino público que o governo golpista está promovendo e pretende levar às últimas consequências.

O fascismo surgiu exatamente assim, como grupos choque, os famosos “feixes de combate” italianos, que tinham no porrete seu principal instrumento de “convencimento” da população. Sua função era acabar à força com as greves operárias, atacar os sindicatos, destruir suas sedes, gráficas etc. Daí ao assassinato de militantes operários foi um pulo. E foi por meio dessa intimidação, combinada com a falta de reação das direções reformistas ou centristas, que o fascismo dominou a Itália, depois a Alemanha e assim por diante.

O MBL deu início a essa atividade fascista de maneira mais aberta agora na enorme onda de ocupações de escola. É certo que sua estreia não foi das mais brilhantes, já que no Paraná, foco das ocupações e estado escolhido para a ofensiva direitista, o MBL tem sido sistematicamente enxotado das ocupações, inclusive por pais, professores e vizinhos, que se aliam aos estudantes que lutam em defesa do ensino público.

Mas o MBL não está contando com um apoio popular abstrato. Conta sim com o dinheiro que escorre do bolso dos grandes capitalistas e com o precioso apoio da imprensa pró-imperialista. Essa apresenta a versão açucarada de que “parte dos pais e alunos” quer a volta às aulas, é contra as ocupações etc., como se as ocupações não tivessem um objetivo político, o de impedir a destruição do ensino, e os que querem desocupar não estivessem querendo justamente o contrário: impor à força a política dos golpistas, do imperialismo, de extinguir a educação pública no Brasil.

O fascismo cresce, assim, com o dinheiro e o porrete, mas só pode ser vitorioso se a classe operária e suas organizações ficarem inertes. Não fiquemos.

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