O Psol desabrochou como um partido burguês

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Henrique Áreas de Araujo

Desde o surgimento do Psol, logo no início do governo Lula, o PCO deixou claro o caráter burguês do partido que se formava com políticos profissionais e parlamentares da ala mais pequeno-burguesa do PT. O rompimento com o PT para formar o Psol não foi uma ruptura à esquerda, na realidade, foi a saída de elementos da esquerda pequeno-burguesa, portanto sem a base social da ala majoritária do PT, que compactuaram com toda a política direitista que o PT colocou em prática desde a sua formação.

Por ser esse retalho de interesses particulares desses parlamentares pequeno-burgueses, o Psol se constituiu como um partido sem programa definido, ou seja, com um programa vagamente de esquerda mas sem a defesa da independência de classe, do socialismo e da revolução. Em uma palavra, um partido burguês, formado por elementos da pequena-burguesia esquerdista.

Desde então, os que sonharam que o Psol seria o “PT das origens” só receberam decepção. Era impossível que um partido formado por parlamentares pequeno-burgueses fosse um PT das origens, formado como a expressão de um gigantesco ascenso operário na década de 80. No máximo, o Psol conseguiu ser um “PT envelhecido”, mas sem a base social.

Esse fato levou o Psol cada vez mais rápido para a direita. Logo na primeiro eleição presidencial que disputou, em 2006, a Frente de Esquerda apresentou um programa direitista que se concentrava na política da cabeça de chapa, Heloísa Helena, que atacou os sem-terra, que fez campanha contra o aborto e uma série de políticas que sequer tem a ver com um programa vagamente de esquerda.

De lá para cá, foram aparecendo inúmeros indícios que a cada dia, o Psol estreitava seus laços com a burguesia. Luciana Genro, na eleição de 2008 apareceu recebendo financiamento da Gerdau, fato que se repetiu nas eleições posteriores, acrescentando ainda o financiamento do grupo Zafari, uma das maiores redes de supermercados do Rio Grande do Sul, na eleição de 2014.

Soma-se a isso, a vitória na prefeitura de Macapá em 2012, onde o Psol mostrou ser um “partido pragmático”, inclusive atacando greves de professores, afinal, de onde tirar o dinheiro para aumentar os salários?

Não tenho a intenção de citar todas as vezes que o Psol se mostrou um típico partido burguês oportunista, mesmo porque não caberia nesse artigo. Mas vale a pena registrar as inúmeras coligação com partidos da direita em inúmeras cidades.

Na atual situação política, é preciso destacar ainda a posição golpistas da maioria das alas do Psol. O Movimento Esquerda Socialista (MES) de Luciana Genro e a Corrente Socialista dos Trabalhadores (CST), do vereador Babá se colocaram abertamente a favor do golpe de Estado e ainda defendem a prisão de Lula e a Lava Jato. “Viva a Lava Jato!”, afirmou Luciana há duas semanas, quando Cunha foi “preso” pela operação, para servir como pretexto para prender Lula.

A ala majoritária do Psol, liderada pelo deputado federal Ivan Valente, demorou para tomar uma posição contra o golpe e mesmo quando fizeram, mantiveram uma posição confusa, ambígua, com considerações como “ser contra a direita, mas não ser a favor de voltar Dilma”, “ser contra o golpe, mas também criticar o PT” e coisas que mais confundem do que ajudam a organizar um movimento que de fato lute contra o golpe.

Na eleição municipal desse ano, em São Paulo, o Psol cedeu a legenda para Luiza Erundina, uma política recém saída do direitista PSB, com relações diretas com a burguesia. Erundina ingressou no Psol para formar o seu próprio partido, a RAIZ. Uma candidatura meramente oportunista e portanto tipicamente burguesa.

Além disso, Erundina traz com ela uma lista corrida de política direitista, com destaque para quando foi prefeita de São Paulo, ainda pelo PT, e entre outras coisas reprimiu a greve dos condutores e abriu caminho para a privatização do transporte.

Por fim e mais importante, há o caso definitivo de Marcelo Freixo, no Rio de Janeiro. Definitivo porque até agora o Psol era um partido da esquerda pequeno-burguesa com ligações pontuais e indiretas com a burguesia. A candidatura de Freixo e os acordos com os setores fundamentais dos capitalistas constituem o Psol um partido diretamente ligado à burguesia.

Para ganhar a eleição, Freixo fez tudo o que um bom candidato burguês faria. Publicou uma carta de compromissos jurando obedecer a política fiscal dos bancos, negociar com o golpista Temer, respeitar a segurança pública e nomear “técnicos competentes” para compor a prefeitura e não “políticos”, ou seja, colocar os políticos indicados pelos grandes capitalistas, como qualquer prefeito de um partido de direita faria.

Freixo inclusive nomeou como conselheira econômica de sua campanha uma neoliberal ortodoxa da PUC-RJ, Eduarda La Rocque, dona da “Revista do empresário”. Se Freixo tivesse sido eleito, La Rocque, que já foi secretária da Fazenda de Eduardo Paes, deveria assumir um posto na prefeitura. Não aconteceu, quem sabe na próxima.

O acordo de Freixo com o setor fundamental da burguesia, os banqueiros e grandes capitalistas, se expressou de maneira clara na campanha da Rede Globo e demais órgãos da imprensa golpista por sua candidatura. É muito simples: sem acordo com os capitalistas, não qualquer capitalista, mas o imperialismo, não há apoio da Globo.

O Psol desabrochou como um partido burguês, são daqueles momentos que a gente nunca esquece.

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