Aquarius – Golpe só para maiores de 18

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 João André Silva

Na última terça-feira, dia 23, o Ministério da Justiça anunciou que o filme brasileiro “Aquarius”, do cineasta pernambucano Kleber Mendonça Filho, será classificado nos cinemas brasileiros com a censura de 18 anos.

A alegação para tal classificação atribuída ao filme é que contém cenas de sexo explícito e drogas. Uma desculpa cínica diante do verdadeiro motivo. Censura política.

Em maio passado o filme “Aquarius” teve sua estreia mundial no Festival de Cinema de Cannes, na França, e virou notícia quando toda a equipe do filme, entre atores, diretor e equipe técnica presente, realizou um protesto contra o Golpe de Estado no Brasil, na exibição de gala no festival. Cartazes em inglês e francês foram levantados pelo elenco e equipe denunciando o Golpe ao vivo para milhares de jornalistas. Entre os dizeres havia “Um golpe de Estado aconteceu no Brasil”, “Parem o Golpe”. A repercussão foi imediata e estrondosa. Na ocasião a presidenta eleita, Dilma Rousseff, havia acabado de ser afastada pelo Congresso Nacional e o golpista Michel Temer já havia assumido e extinto o Ministério da Cultura.

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Atrizes de “Aquarius” protestam em Cannes.

O protesto venho como uma bomba, foi noticiado mundialmente, estampou a capa de jornais estrangeiros como o “The Guardian” revelando ao mundo a farsa do Impeachment.

O filme foi extremamente elogiado por crítica e público no festival e ficou entre os favoritos ao prêmio que foi concedido ao inglês Ken Loach pelo longa metragem, “I Daniel, Blake”.

As críticas favoráveis a “Aquarius amplificaram ainda mais o protesto. A repercussão levou a direita golpista a produzir calúnias contra o diretor e a equipe dizendo que estavam ganhando dinheiro público para fazer protesto fora do Brasil.

A censura a “Aquarius” é totalmente política. As tais cenas de “sexo explícito e drogas” são uma cortina de fumaça para uma retaliação do governo golpista ao filme que é identificado com o protesto contra o Golpe realizado em Cannes. A classificação de 18 anos é exagerada e facilmente desmentida, pois as cenas envolvendo sexo e drogas são triviais em comparação a outros dois filmes brasileiros recentes que tiveram classificação inferior, “Boi Neon” e “Tatuagem”.

A perseguição a “Aquarius” não para por aqui. Recentemente o diretor Kleber Mendonça Filho escreveu uma Carta Aberta sobre a Comissão brasileira do Oscar, que escolhe qual filme vai tentar uma vaga entre os indicados a filme estrangeiro.

Na carta Mendonça destaca o processo democrático que a comissão d

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Marcos Petrucelli, “imparcial”, não viu e não gostou de “Aquarius”.

everia ter, mas que não tem, pois é presidida pelo jornalista Marcos Petruccelli que atua na Rádio CBN. O cineasta destaca “o jornalista em questão vem atacando, por questões políticas suas, já há três meses, “Aquarius”, filme escrito e dirigido por mim, e que o jornalista membro oficial da comissão já informou não ter visto.” Petruccelli foi um dos jornalistas golpistas que inventou calúnias sobre o diretor e a equipe técnica de terem ido fazer turismo em Cannes com dinheiro público.

Este debate já provocou cisão na comissão e reação de outros cineastas. O diretor Gabriel Mascaro, retirou da disputa pelo Oscar seu filme “Boi Neon”, em protesto. A diretora de “Que Horas Ela Volta”, Anna Muylaert, também anunciou que não vai inscrever seu novo filme, “Mãe Só há uma” para tentar uma vaga ao prêmio e a atriz Ingra Lyberato, que fazia parte da comissão, anunciou sua saída na última sexta-feira, diaquarius protestoa 26, também por considerar o processo antidemocrático.

Apesar do boicote dos golpistas ao filme no Brasil, “Aquarius” já ganhou dois importantes prêmios nos festivais de Sidnei e Amisterdã. E já tem acertada a distribuição em mais de 60 países.

Precisa ficar claro que o protesto realizado em Cannes representou não somente a opinião da equipe do filme, mas toda a classe artística brasileira que desde o afastamento de Dilma Rousseff está protestando contra Temer e os golpistas. A censura a “Aquarius” mostra que os golpistas querem calar a voz de qualquer voz dissonante. É uma clara demonstração de que a ditadura já voltou e caminha a passos largos. Assistir ao filme não será apenas um programa agradável, mas um ato de protesto e resistência ao golpe.

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Faixa de protesto em Cannes: “Parem o Golpe no Brasil!”
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