PSTU comemora o impeachment e diz que não é golpe

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a.eduardoAntonio Eduardo Alves de Oliveira

Neste dia 25 de agosto, a direita iniciou o processo farsa no Senado federal para consumar a derrubada da presidenta Dilma Rousseff.

O impeachment nada mais é do que um ataque contra a vontade popular e uma fachada institucional para forjar um governo não eleito para atacar os direitos dos trabalhadores e saquear o patrimônio público. A chamada crise política apresentada por alguns como algo misterioso ou da responsabilidade exclusiva do governo petista é na realidade o desenvolvimento das engrenagens para um golpe de Estado no Brasil. Os setores mais conservadores no espectro político, alguns deles de dentro da coalização governamental como o PMDB, romperam os parâmetros estabelecidos a partir de 1988 e através de uma série de mecanismos, manobras e conspirações envolvendo o judiciário, o legislativo e a imprensa capitalista colocaram em movimento uma engenharia política visando à derrubada do governo de frente popular.

A imprensa capitalista e os políticos golpistas fazem todo o esforço para manipular a opinião pública e apresentar essa grotesca farsa do impeachment como sendo um procedimento legal e até mesmo democrático. É importante ressaltar que as regras jurídicas elementares não foram sequer respeitadas, uma vez que o processo aceito no congresso nacional para a remoção do mandato da presidenta eleita não possui nenhuma justificativa legal, não existindo nenhuma prova efetiva de que a presidenta cometeu crime de responsabilidade.

Instalado o julgamento montado para garantir a transferência definitiva dos poderes de Estado para o governo golpista de Temer, a imprensa golpista e a classe dominante têm mobilizado todo o seu arsenal de mentiras para passar a derrubada do governo Dilma, como algo histórico e apoiado pelo “povo”.

Neste esforço da direita para ocultar o golpe, ela tem a inusitada e inestimável contribuição dos “ revolucionários” do PSTU, que não somente apoia a queda de Dilma como afirma que a derrubada do governo do PT é como se diz “algo bem empregado” e mais ainda, nega que existe golpe de Estado no Brasil.

A política sectária do PSTU: uma cobertura de esquerda para o golpe de Estado contra o povo brasileiro

Em artigo intitulado “Fim de um ciclo: O PT e o impeachment de Dilma”, publicado no dia 24 de agosto no site do PSTU, os morenistas não somente apresentam mais uma vez o seu posicionamento a favor da derrubada do governo Dilma, isso depois de mais de 100 dias de uma política de total ataque aos trabalhadores pelo governo golpista de Temer, como não conseguem disfarçar minimamente um incontrolável contentamento pela queda do PT. A lógica bizarra do sectarismo do PSTU é de um primarismo sem limites, eles consideram que é positivo a derrota do PT, além do mais não existiria golpe algum da direita.

Para o articulista do PSTU, o motivo para a queda de Dilma é o fato de que as massas romperam com o PT, e portanto é um processo político em perspectiva progressista, apesar de momentaneamente a direita ter conquistado o poder, devido às “confusões de ocasião”. “A direção do PT agita a farsa do ‘golpe’ para esconder que o elemento decisivo para a queda do governo Dilma foi o rompimento da classe trabalhadora e dos setores populares com a presidente e com o PT” (site PSTU). Note bem os elementos coincidentes do PSTU com a visão da imprensa golpista e da direita capitalista sobre a queda do PT. Não existe golpe nenhum, a palavra “golpe”, sempre entre aspas, é apenas uma “narrativa” ou como diz o PSTU, uma “farsa” criada pelo próprio PT. Sendo que o “elemento decisivo para a queda do governo Dilma” é que o povo e a classe trabalhadora que “rompeu com o governo”.

Nesse sentido, a conclusão do PSTU é que quem derrubou o PT foi o próprio PT, ou melhor, foram as massas. A chegada da direita pro-imperialista é apenas um efeito colateral. O real motivo para a chegada de Temer ao poder não são as artimanhas golpistas da direita para estabelecer um governo que ataca de maneira mais decisiva os direitos dos trabalhadores, a educação e a saúde e tudo mais que o governo golpista já está deixando evidente. O PSTU continua: “mas hoje, a fumaça começa a se desfazer. Os verdadeiros motivos da queda de Dilma assim como a traição e o fracasso do PT aparecem. O fenômeno mais importante para o futuro da classe trabalhadora brasileira é sua ruptura com o PT.”

O título da matéria do PSTU já contém essa posição sobre “o fim do ciclo do PT”, que significaria que a revolução está avançando, pois caíram os traidores aliados da burguesia, agora o caminho fica livre para os trabalhadores tomarem o poder.

Uma curiosidade histórica para os estudantes de historia e de jornalismo. A imprensa golpista tradicional tem muitas vezes os mesmos títulos da imprensa golpista alternativa, no estilo Opinião Socialista. Assim, a revista golpista Isto É ostentou na sua capa uma estrela rasgada com o título “O fim da Era PT” e a também golpista revista Veja apresentou recentemente o título “As ruínas do PT”. A ideia é a mesma tanto para os golpistas de direita quanto para seus colegas morenistas golpistas de esquerda: não existe golpe, o PT acabou e quem derrubou o governo Dilma foi o povo e os trabalhadores.

As fajutas pesquisas do datagolpe “indicando” que ninguém aprovava o governo Dilma em março desse ano (apenas 8%) e agora que ninguém quer o “volta Dilma” são citadas constantemente pelo próprio PSTU para justificar a sua tese de que como o povo é pela derrubada do governo, então não é golpe e o papel dos “revolucionários” é inclusive apoiar a queda do governo. É uma variação nacional da mesma política de apoio aos golpes da direita pelo PSTU no Egito, Ucrânia e mais recentemente na Venezuela (eles defendem o Fora Maduro).

Não dá para negar que o PSTU pelo menos mantém uma coerência internacionalista: a favor do imperialismo. Onde houver golpe da direita com “massas na rua”, o PSTU/LIT apoia. Evidentemente que para o PSTU as aspas devem ser trocadas na frase anterior ( “golpe” e massas).

Arrogância do PSTU : um disfarce conveniente para uma covardia política

Um dos eixos da análise para justificar que não existe golpe para o PSTU é a ausência da “luta contra o golpe” pelo PT e cita a recente carta aos senadores da presidenta Dilma para demonstrar a incoerência do PT. “Apesar desta afirmativa categórica, tanto a carta como a ação política de Dilma e do PT são totalmente incoerentes e desmentem a tese do ‘golpe'”( site PSTU). O PSTU em outro trecho do artigo tem o disparate de cobrar que não existe mais luta contra o golpe: “o PT há muito deixou de lado as tentativas de mobilizar o povo contra o ‘golpe'”. O PSTU joga com a capitulação do PT para de uma maneira cínica justificar a sua tese, que como já mostramos na verdade é uma tese da direita, de que não existe golpe.

A carta escrita por Dilma precisa ser criticada pelo fato de aceitar a política golpista do próprio PSTU, ou seja, admitir a possibilidade de novas eleições, o que seria na prática uma capitulação política aos golpistas, uma vez que o mandato popular seria interrompido para a realização de eleições, inteiramente controlada pelos golpistas, é a via egípcia de legitimar o golpe.

A direita criou artificialmente as manifestações coxinhas em favor da Lava Jato visando tão somente à derrubada do governo Dilma. Foram manifestações apoiadas pela FIESP, pelos governos burgueses e pela imprensa capitalista, recheadas de racismo, machismo, homofobia e anti-comunismo expresso no anti petismo e nas agressões a Lula e Dilma, que diga-se de passagem neste último ponto é plenamente compartilhada pelos morenistas ( no PSOL e no PSTU).

Como contraposição aos coxinhas foi criado um amplo movimento popular e sindical com milhares de comitês e atos contra o golpe em todo o País. Esse movimento conhecido “Não vai ter golpe” colocou em relevo a luta contra a direita e a importância da mobilização. Entretanto, após a votação da aceitabilidade do impeachment na câmara de deputados, o movimento refluiu, sendo que um dos problemas é que uma parcela importante do movimento, em especial o PCdoB, adotou a política capituladora de novas eleições.

Qual foi a participação do PSTU nesta luta? Não somente não foi nenhuma como foi de total sabotagem, em nome de um inexistente “terceiro campo” adotou-se uma política divisionista a serviço da direita golpista. O PSTU e entidades ligadas à sua política ultraesquerdista como a CSP/Conlutas e o Andes simplesmente se recusaram a lutar contra a direita, apresentando mil pretextos para não fazer frente contra o golpe ( PT = direita, o ajuste fiscal de Dilma etc). Além do mais, quem é o PSTU para cobrar do PT e de qualquer outro setor que saiu às ruas contra os golpistas? “O PT há muito deixou de lado as tentativas de mobilizar o povo contra o ‘golpe'”, diz o PSTU, que não somente se recusou a lutar contra o golpe, como fez aliança prática com a direita pela derrubada do governo, chamando atos pelo Fora Dilma e “Fora todos” para escamotear o apoio ao golpe.

O suposto moralismo “revolucionário” do PSTU que se recusou a participar de manifestações contra a direita, pois tinha “petistas” e “governistas” somente serviu para mascarar por um breve período a própria política do PSTU de frente única com a direita golpista.

Mas como é possível um partido que de uma maneira ou de outra se reivindica de esquerda até mesmo trotskista adotar posições capituladoras fazendo uma frente única com a direita golpista? Ao analisar o artigo “Fim de um ciclo: O PT e o impeachment de Dilma” podemos ver questões relevantes que explicam essa aliança com a direta pelo PSTU. Como nunca houve luta efetiva contra os governos da frente popular por parte do PSTU e seus aliados, eles se contentavam com um discurso vazio de um suposto combate “ao governismo”, assim quando já estava posta a derrubada do governo Dilma, o PSTU afirmava que o PT era um partido capitalista e estava a serviço do capital, logo não seria derrubado.

Assim, quando a realidade negou de maneira concreta todos os prognósticos do PSTU, ele não fez balanço algum, muito pelo contrário, insistiu na política ultraesquerdista e passou a defender a derrubada do governo. O PSTU afirmava que todo mundo odeia o PT. Quando surgiu o movimento Não vai ter golpe ele se colocou contrário, pois a realidade mais uma vez negava os dogmas moralistas do PSTU (o PT é “mau”, logo o povo é contra o PT). Se a realidade não comprova as teses morenistas, pior para a realidade, e mesmo após o partido ter sofrido um grande racha, com abandono de quadros históricos e perdas de regionais inteiras, o discurso triunfalista continua. O problema para o PSTU é que existe uma “fumaça” na conjuntura que impede que as pessoas vejam o que somente os sábios do PSTU conseguem ver, mas a esperança é que “a fumaça começa a se desfazer” e a “confusão” vai passar e todo mundo vai entrar no PSTU. Nesse ponto, é importante entender que o cálculo do PSTU não é somente sectário, mas é profundamente oportunista.

A base da política do PSTU é a noção do “fim do ciclo do PT”, logo alguém vai ter que tomar o lugar dos petistas na esquerda e no movimento sindical (por isso criaram uma central artificialmente). O golpe da direita que o PSTU apoia não é golpe, é uma ruptura dos trabalhadores com o PT, um processo que levará à “superação de uma velha direção oportunista e traidora”. Neste sentido, é uma profunda ilusão do PSTU que o golpe da direita irá favorece-lo. O golpe é contra o movimento operário, a esquerda e o povo brasileiro e não somente contra o PT , Dilma e Lula. Essa ilusão do PSTU que não vê um palmo diante do nariz é compartilhada pelo PSOL, em especial Luciana Genro, que imagina que poderá herdar o espólio eleitoral do PT e mesmo agrupamentos da frente popular como o PCdoB e setores do próprio PT que acreditam que podem manter o seu espaço (ainda que diminuído) no quadro institucional em regime cada vez mais anti-democrático.

Além disso, o que alimenta a estupidez sectária e o oportunismo do PSTU é a visão de quanto pior melhor: “Pode haver confusão no princípio, assim como desconfiança em todos os partidos políticos, mas o aumento da exploração e as lutas de resistência empurram as massas a buscar novas alternativas” (site PSTU). Isso significa para os morenistas que a queda do PT é algo ainda mais positivo do que a principio se poderia imaginar, pois o efeito colateral da derrubada de Dilma será o “aumento da exploração”, o que é bom, pois isso gera mais revolta e “empurra as massas” para buscar “novas alternativas” ou seja o próprio PSTU e sua central para consumo próprio.

Essa farofada do PSTU sobre “foram as massas que romperam com o PT”, de que o golpe (entre aspas para PSTU) é uma farsa, e que o aumento da exploração somente favorece a revolução (pelo jeito, devem estar muito satisfeitos com o governo golpista Temer) somente revela que apesar das bravatas e arrogância do PSTU, o partido se acovardou na hora de lutar contra a direita golpista. Essa capitulação política do PSTU serviu para dar uma cobertura de esquerda para o golpe da direita, na medida que apoia a campanha da direita de que não existe golpe.

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