As importantes lições do congresso do maior sindicato do País

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Antônio Carlos Silva*

As principais (e também algumas de quase nenhuma importância) orientações e “desorientações” da esquerda se expressaram e se enfrentaram no XXV Congresso do Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo (APEOESP), realizado de 22 a 25  passados, em Serra Negra (SP).

O Encontro, realizado a cada três anos, é o maior evento político-sindical do País (só sendo superado pelo Congresso da CUT, que tem mais de 3.600 sindicatos filiados). Reuniu mais de 2.100 delegados, eleitos nas 92 subsedes do Sindicato, espalhadas por todas as regiões do Estado.

Sua importância se viu acrescida por ser o primeiro grande congresso de trabalhadores realizado após o golpe de Estado que derrubou a presidenta eleita e diante de um aprofundamento do regime golpista que atinge em cheio a Educação gerando uma enorme revolta entre professores e estudantes, o que já levou à ocupação de mais de 1.2oo escolas e universidades em todo o País. Repetindo a iniciativa que, no ano passado, compôs a ampla mobilização que derrotou a chamada “reorganização escolar”  por meio da qual o governo de Geraldo Alckmin (PSDB-SP) queria fechar mais de mil escolas e demitir mais de 50 mil professores e funcionários.

No momento em que o regime golpista caminha, aceleradamente, no sentido de uma ditadura comandada pelo bloco mais direitista, PSDB-DEM,  que realizou o golpe em favor dos interesses do imperialismo, e quando estão colocados sob ameaça os mais elementares direitos democráticos dos trabalhadores e de suas organizações (incluindo o direito de reunião e organização), o Congresso teve como um dos seus pontos altos o ato político realizado em sua abertura, no qual compareceu e foi o principal orador o ex-presidente Lula, no momento em que sua prisão figura como um dos principais objetivos dos golpistas, como forma de impor uma derrota ainda mais profunda ao movimento de luta dos trabalhadores e às suas organizações, uma vez que, como já assinalamos, “querem eliminar o ‘general’ para esmagar o exército que luta contra o golpe“.

No ato, mais de 99% dos congressistas, assim como centenas de outras pessoas que lá compareceram, entre eles dirigentes da luta contra o golpe, como o presidente da CUT, Vagner Freitas, prestaram solidariedade à Lula e discutiram a necessária retomada da mobilização da luta contra o golpe, reforçando a idéia central da tese Educadores em Luta contra o golpe, apresentada no Congresso pelos delegados da Corrente Sindical Nacional Causa Operária (PCO e simpatizantes), de que não é possível defender o ensino público, o emprego e os salários dos professores ou qualquer reivindicação fundamental dos explorados do País, sem lutar e derrotar o golpe de Estado.

O minúsculo grupo de presentes que se opôs à manifestação de solidariedade ao ex-presidente, formado por militantes do PSTU, e que viraram as costas para Lula durante sua intervenção, expressou o retrocesso político de um punhado de grupos da esquerda que, na prática, se juntaram à direita, na defesa da prisão de Lula, no apoio à operação lava jato, na condenação da presidenta eleita pelo povo pelo golpe (como a imensa maioria dos brasileiros).

Esta confusão política se expressou também (como acontece no interior da esquerda e de todo o movimento operário), ainda que de forma menos contundente e reacionária, da parte de setores da esquerda pequeno burguesa (além do PSTU, seu “rachas”  e satélites, o PSOL, setores da esquerda do PT etc.), na política de exigir dos petistas uma “autocrítica”  (“que o PT se coloque de joelhos e faça contrição”) como condição para se colocaram ao lado dos milhares de filiados e dirigentes do partido na luta contra o golpe.

Mostrando a enorme a importância da luta política e as enormes possibilidades para um avanço das posições classistas no interior das organizações dos trabalhadores, o Congresso rejeitou massivamente esta política e se posicionou claramente a favor da mobilização e da luta contra o golpe, da unificação dos trabalhadores contra o regime golpista, por meio da greve geral e de outras formas de mobilização.

Mesmo com as limitações de sua estrutura burocrática (que impede uma maior participação da categoria no evento), o encontro aprovou um Manifesto proposto pelas correntes do PT e pelo PCO que apontam no sentido dessa perspectiva de luta contra golpe, no sentido da unificação dos educadores, apontando que o Congresso Nacional da CNTE (Confederação Nacional dos Trabalhadores da Educação) – a ser realizado em janeiro – aprove a greve nacional da Educação e um chamado à CUT para que organize, junto com as demais organização antigolpistas, a greve geral.

O Congreso ainda rejeitou categoricamente a política de toda a burguesia e, principalmente, de sua ala mais direitista e reacionária de impor a divisão entre os trabalhadores, ao rejeitar a proposta  de que fosse realizado um plebiscito  sobre a desfiliação da APEOESP da CUT. Nesta e outras votações, a esmagadora maioria dos professores derrotaram a “terceirização política”, uma vez que a direita não tendo delegados oficiais e declarados no Congresso, foi representada na defesa dessas posições pela Conlutas (PSTU e satélites) e setores do PSOl. A manobra era clara: aprovado o plebiscito, Conlutas-PSTU, Força Sindical, PSDB, MBL, DEM, a imprensa golpista etc. se juntariam em uma campanha para pressionar a categoria a retroceder e desfiliar o Sindicato da única central sindical, organizada a partir da luta dos trabalhadores do País e que tem papel decisivo na luta contra o golpe.

Não foi perfeito (como nada que é humano), mas em seu Congresso os professores paulistas deram várias lições que podem e devem ser usadas pelos trabalhadores de todo o País em sua luta contra o golpe e por suas reivindicações.

Antônio Carlos Silvaprofessor, da executiva nacional do PCO, coordenador da Corrente Sindical Nacional Causa Operária e da Oposição Educadores em Luta, foi delegado pela região Centro-Sul de São Paulo no Congresso da APEOESP

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